O jornalista começou a viver sua decadência décadas atrás, no momento em que passou a acreditar que só há uma forma de fazer jornalismo: de dentro de uma redação. De preferência como membro de um grupo de de comunicação de grande porte. E com a garantia de salário, férias, 13º e eventuais viagens patrocinadas por fontes. Entender e rever tal realidade é essencial para compreender saídas futuras para a atividade profissional.

A dependência do profissional de imprensa na relação com empregadores é evidente até mesmo nos conceitos sobre a profissão. Recorra à busca do Google para buscar uma definição. Eis a primeira:

jornalismo

substantivo masculino

1. jor atividade profissional que visa coletar, investigar, analisar e transmitir periodicamente ao grande público, ou a segmentos dele, informações da atualidade, utilizando veículos de comunicação (jornal, revista, rádio, televisão etc.) para difundi-las.

2. jor o conjunto dos jornais ou dos jornalistas; imprensa.

"o j. brasileiro"

Dúvidas conceituais parecem inquestionáveis, também, em exemplos práticos, como ocorrem nas relações entre representantes da própria categoria. Apenas agora, como processo recente, as agências de assessoria de comunicação e de imprensa passaram a incluir em seus mailings profissionais os blogs, sites independentes e mídias sociais como destino de suas sugestões de pauta.

Para ironia das ironias do destino, ainda hoje entre os sobreviventes das redações tradicionais, ainda há quem discute se assessores de imprensa fazem jornalismo. E a resposta carregada de preconceito é quase sempre não: assessores não são, para os "deuses" do emprego corporativo, dignos de serem referenciados como jornalistas.

Não foram poucas as vezes em que eu, que saí de trabalhos em redações para criar uma empresa que desenvolvia projetos digitais – ou seja, na internet – ouvi a pergunta: você largou o jornalismo? Como criador de uma empresa que seja chamava Conteúdos.com, eu respondia: que nada, sou cada vez mais jornalista.

Visões distorcidas

O processo é curioso por revelar um corporativismo invertido. Ao contrário de outras profissões. No espírito de corpo da medicina, médicos que se ocupem integralmente do conselho administrativo de um hospital continuarão recebendo o "direito" de ser chamado de "doutor" e as deferências como médico. Algo como, "sabe o dr. Luiz, presidente do Hospital X, ontem foi homenageado pelo conselho de medicina, mesmo não tendo exercido a profissão".

O mesmo espírito de corpo funciona em outras profissões, como no direito e na engenharia. Aliás, há uma enorme quantidade de engenheiros responsáveis por funções de marketing. São respeitadíssimos. Nas empresas, é o engenheiro elétrico, diretor de comunicação e marketing.

A profissão também perdeu sua força ao se distanciar da ciência social como seu principal recurso formativo. Salvo engano ou alguma injustiça, as escolas de jornalismo se especializam em preparar especialistas em técnicas de produção e redação dissociadas do conhecimento teórico sobre o funcionamento da sociedade. Assim, não é de assustar que um jornalista produza um texto com a mesma profundidade de um estudante de tecnologia.

Jornalistas devem encarar os fatos para além das notícias. Jornalismo será uma atividade exercida cada vez mais fora de redações, mesmo que elas continuem existindo, de fato. Algumas estruturas ainda serão enormes, altamente concentradoras de poder, mas distribuídas na produção. Não mais como o modelo de mídia regional vigente hoje. Outras redações, uma enorme quantidade de pequenas, serão o resultado da visão de um jornalismo novo e inovador, em que o profissional será dono de suas ferramentas de trabalho.

É necessário avançar na compreensão de que jornalismo não será mais apenas a produção de notícias ou de interpretação superficial de fatos. Jornalismo não poderá ser mais a atividade cujo principal objetivo é fornecer informações para um público geral, despersonalizado. Não dá mais para ser produtor para um público de produtos tradicionais. Não pode ser mais aquele leitor de jornal com notícias distribuídas em editorias de política, economia, cidade, social e cultura.

O jornalista precisará mirar em suas habilidades apreendidas e que ele utiliza precariamente nos empregos em redações. Até porque não reconhece tais habilidades como diferenciais. Competências como capacidade para mapear e identificar fontes, entrevistar, levantar e processar dados, produzir conhecimentos, disseminar as informações. Além do necessário domínio de conceitos e autores das ciências sociais. Deixar de ser produtor de notícias para ocupar lugares no mercado como geradores de conhecimentos inovadores.

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