O novo jornalismo, visto como “espaço público dos conflitos” e protagonizado pelo “destinatário da informação”, exige a criação de um conselho de defesa, que seja discutido pela sociedade

Por Antonio Graça

As mudanças ocorridas no jornalismo com a revolução digital, marcadamente a partir da década de 1990, não são apenas tecnológicas, operacionais e mercadológicas. O próprio conceito social de imprensa está mudando. "O jornalismo ganhou uma dimensão maior do que tinha quando era considerado e tratado como o quarto poder. A revolução digital contribuiu decisivamente para isso”, diz o professor e pesquisador Manuel Carlos Chaparro, autor do livro “Jornalismo: Linguagem dos Conflitos”, que analisa a linguagem jornalística no novo ambiente tecnológico.

 Ele acrescenta: “o jornalismo mudou porque o mundo mudou. Hoje, o jornalismo é o espaço público dos conflitos. É também a linguagem dos conflitos”, afirma. E continua: “A criação de um “conselho de defesa do jornalismo” como entendo que deva ser chamado o organismo a ser criado, precisa ser discutida com a sociedade. Na Europa, por exemplo, os conselhos não são derivados dos sindicatos, mas da sociedade."

 Um bem público

 De acordo com o professor, o jornalismo é o espaço público mais importante e a linguagem de mais intenso uso do mundo globalizado. “Portanto, um bem público indivisível, porque pertence a todos. O leitor de jornal, o telespectador, internauta ou ouvinte do jornal radiofônico, enfim o destinatário da informação, é um protagonista do processo jornalístico. Sem ele, a notícia seria inútil”, afirma.

 Chaparro observa que “qualquer associação, a exemplo de um conselho, tem que assumir essa perspectiva”. Para ele, “o jornalismo tornou-se instância civilizacional, uma instância cultural da transformação.  O jornalismo não é mais só a profissão e o poder dos jornalistas. Os protagonistas, geradores e usuários dos conteúdos, somos todos nós, os leitores, as fontes, as pessoas e as instituições que constroem o percurso da notícia. Por isso, entendo que um conselho de jornalistas, que poderia se chamar Conselho de Defesa Profissional do Jornalismo, deve ter como fundamento a ideia do jornalismo como bem público.”

 Longa batalha

 As opiniões do professor Chaparro vão ao encontro da proposta da Associação Profissão Jornalista (APJor). O grupo de profissionais que criou a Associação, e que se reúne desde 2013, mobiliza-se pela ampla discussão com os colegas e com a sociedade para a criação de um conselho com esse objetivo.

 “Por isso mesmo, a batalha será longa e renhida”, avalia Fred Ghedini, presidente da APJor.  Ele lembra como em 2004, quando tramitava no Congresso Nacional o projeto de lei de criação do Conselho Federal de Jornalismo, apresentada ao Governo Lula pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), houve forte oposição. “Recebemos uma saraivada de bordoadas”, lembra Ghedini.

 A oposição, no entanto, veio principalmente das empresas jornalísticas que viram o risco de ter esvaziado o monopólio que elas exercem sobre o que foi o quarto poder. “Chegaram até a afirmar que o conselho seria uma forma de censurar a imprensa. Como se não fosse um contrassenso afirmar que os jornalistas pretendessem criar uma entidade para censurar a própria atividade”, afirma Ghedini.

 Retomada do debate

 Passado aquele momento, Ghedini vê a retomada do debate como um processo com outras condicionantes, em um outro momento. “O conceito defendido pelo professor Chaparro é central para o debate sobre um conselho de jornalistas neste momento em que vivemos. O Jornalismo sempre foi uma atividade voltada totalmente para a sociedade. Agora, no entanto, o público é parte ativa do processo. As pessoas nunca foram consumidoras da informação jornalísticas. Elas sempre foram parte. Mas agora, tal participação é instantânea e totalmente integrada à própria produção jornalística”, argumenta.

 Para o presidente da APJor o jornalismo, para existir, não pode prescindir da liberdade de expressão. Mas deve ser exercido com responsabilidade. Os termos do binômio liberdade/responsabilidade são balizados pelos princípios éticos e pelas boas práticas profissionais. Regras que precisam ser pactuadas com os diferentes públicos do Jornalismo. “Daí a necessidade de uma organização que articule esse meio de campo”, defende Fred Ghedini.

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