Livro analisa o isolamento da América Latina no jornalismo brasileiro

Por Antonio Graça

 Debruçado sobre o Atlântico e com a política externa voltada prioritariamente para a Europa e os Estados Unidos, o Brasil continua, com poucas exceções, como o Mercosul, de costas para os países de língua espanhola da América Latina. A imprensa é parte deste distanciamento.

A questão foi objeto de dissertação de mestrado na ECA-USP e tema do livro A Solidão da América Latina na Indústria Jornalística Brasileira, do jornalista e professor Alexandre Barbosa, lançado no ano passado pela editora Alexa Cultural (114 páginas, R$ 39).

 Segundo Barbosa, a região latino-americana encontra-se varrida das manchetes dos jornais, sufocada que está pelas políticas econômicas que reforçam a condição de periferia primário-exportadora, comandadas por classes dirigentes cada vez mais aliadas ao capital europeu e norte-americanos.

 No que se refere à imprensa, as causas são históricas, resultado do processo de colonialismo e neo-colonialismo. “O próprio processo de produção jornalística, o uso de agências internacionais de notícias ao invés de correspondentes sediados em países da América Latina, é uma causa. E o mais grave: a formação, tanto do jornalista, quanto do público. Estudamos pouco a América Latina desde o ensino básico. E, no ensino superior, os futuros jornalistas a estudam muito pouco”, afirma o professor.

 Barbosa admite que os jornalistas brasileiros quando indagados ou colocados diante dessa realidade se mostram conscientes desse distanciamento. ”Mas, infelizmente, diante da máquina de moer carne, ou como dizia uma colega jornalista, a máquina de lavar roupa que é o trabalho nas redações, há pouco tempo de reflexão. Trabalha-se muito e reflete-se pouco. É preciso criar mais espaços de debate e reflexão sobre a produção jornalística”, avalia Barbosa.

 De acordo o professor, os países de língua espanhola têm um sentimento maior de latinidade do que Brasil. Um exemplo o diário La Nacion, da Argentina, que tem uma coluna no caderno de internacional chamada América Argentina, com notas redigidas a partir de material das agências.

 Indagado sobre que ações deveriam ser promovidas para reduzir este distanciamento, Barbosa afirma que a principal delas é aumentar os estudos sobre América Latina, primeiro nas graduações de jornalismo, depois, nos programas de pós-graduação e num futuro não muito distante, na formação básica. “Colocar, por exemplo, um clássico da literatura latino-americana nas listas de vestibular seria um passo interessante.

 Além disso, é preciso mais espaços de debate. Na academia foram muito tímidas as iniciativas quando morreu Eduardo Galeano ou quando se completaram os 50 anos da publicação de Cem Anos de Solidão. Mas o mercado também poderia fazer eventos. Por exemplo, “reunir os ganhadores do Prêmio Nobel da Paz que são latino-americanos e fazer um seminário sobre violência e direitos humanos na região”, sugere Barbosa. 

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