O novo jornalismo, assim como a arte o fez em tempos pós-modernos, rompe com as tradições, avança sobre novos materiais e linguagens e abre para o expectador a possibilidade de participar do ato de sua criação

O jornalismo sempre flertou com a arte. Diversos poetas e escritores brasileiros, e também no exterior, tiveram como profissão o jornalismo. E, confidencialmente, que jornalista não nutre um sonho (mesmo que secreto) de se tornar escritor? O jornalismo em si, no entanto, não pode ser considerado uma arte. É uma técnica que fornece ao leitor um produto: a informação, que teoricamente deve ser objetiva, imparcial e de interesse público, embora na prática nem sempre o seja. De qualquer forma, a produção dessa informação tem sido até agora uma tarefa de iluminados, ascetas, trancados em uma redação, munidos de um telefone e uma máquina de escrever – hoje um computador, com licença para caçar informações privilegiadas e despejá-las sobre o leitor.

Esse é o velho jornalismo. O novo, assim como a arte o fez em tempos pós-modernos, começa a romper com as tradições modernas, avança sobre novos materiais e linguagens e abre para o expectador a possibilidade de participar do ato de sua criação. À medida que vê o seu suporte físico se desmantelar, com o avanço da tecnologia da informação, o novo jornalismo é invadido pela sociedade, multifacetada e colorida. As consequências não têm sido insignificantes.

Municiado dos recursos da tecnologia, entre eles a capacidade de disseminação relâmpago, a reação imediata, os algoritmos e a capilaridade, o novo jornalismo está se tornando uma representação dinâmica da sociedade, mesclando leituras “objetivas” da realidade com manifestações espontâneas de atores sociais, criando linguagens cada vez mais próximas de seu próprio público. Por outro lado, o público se especializa, com lideranças comunicadoras, com mensagens que se reforçam e reforçam ideias de segmentos sociais diversos. A sociedade multifacevoicecollorida da pós-modernidade quer informações pós-verdadeiras.

Liberto desse suporte físico caro (o papel, a televisão, o rádio), que exige grandes investimentos, e monopolizado por grupos de interesses restritos, o jornalismo abre a perspectiva de empoderamento do consumidor no processo de produção da notícia, desde a pauta até as repercussões, basta que o novo consumidor entenda que é mais vantajoso arcar com os custos dessa produção diretamente, e não “financiado pelo anunciante”.

A tecnologia necessária já existe, o que precisamos é nos apropriar dela, como jornalistas, e fazê-la funcionar a nosso favor (profissionais e consumidores do jornalismo). A exploração dos dispositivos móveis e seus aplicativos como mídia já é uma realidade. É sabido que com a popularização caem os custos, o que permite faturamentos astronômicos com preços baixíssimos para o consumidor final.

Hoje, aplicativos altamente interativos poderiam disponibilizar para o leitor a possibilidade de decidir sobre a qualidade da informação que consome desde a proposta de pauta, passando por todo processo, indicando fontes, escolhendo os profissionais que vão produzir a matéria, comentando, levantando questões, fornecendo informações, definindo linguagens etc. Sintetizando, a tecnologia já permite que o consumidor tenha à sua disposição informação personalizada, plural e segura, e com baixo custo.

O grande desafio desse novo jornalismo será criar uma demanda real, monetizada, de informação pública de qualidade. Não se trata de uma demanda explícita, mas latente, e precisa ser despertada no próprio consumidor, juntamente com a oferta do produto. No fundo, essa mudança cultural precisa começar com a conscientização do consumidor de que atualmente ele está comprando gato por lebre, que a informação jornalística pode e deve ser mais qualificada, mais adequada para suas necessidades e expectativas.

Não é estranho que os velhos provedores de informação jornalística não saibam mais como “vender a notícia”. Eles, historicamente, jamais venderam a notícia em si, jamais sequer a avaliaram isoladamente. O que as empresas jornalísticas vendem, há muito tempo, é um produto que oferece entre outras coisas a notícia. Na verdade, o que eles vendem é o público que atraem, para o anunciante. A notícia é apenas uma isca, para atrair esse público.

Será necessário esclarecer também que nesse modelo a informação não sai de graça como parece. Embora custeada pelo anunciante, ninguém deve ser ingênuo a ponto de pensar que esse custo não está incluído no preço do produto anunciado e que, em última instância, somos nós mesmos que pagamos no caixa do supermercado. Portanto, trata-se de criar uma cultura de valor sobre a informação: se somos nós que pagamos, que a informação jornalística nos chegue da forma como precisamos e queremos, sem “atravessadores”.

Muita coisa vem-se tentando no sentido de monetizar a informação na internet. A primeira tentativa, claro, copiado do modelo antigo, foi a publicidade, que no final das contas encheu os bolsos de algumas gigantes da rede. Hoje, mesmo os provedores tradicionais de informação tentam implementar uma política de assinaturas de seus canais. Torço para que o NYT um dia venha a depender apenas de sua receita de assinantes, empoderando-os em todo o processo de produção da informação. Com certeza, não seremos senhores da verdade, mas teremos uma sociedade muito mais transparente.

No link abaixo, matéria sobre o De Correspondent, uma interessante experiência na linha desse novo jornalismo, que envolve seus leitores no próprio processo de produção, lançada há seis anos na Holanda.

https://digiday.com/media/go-dutch-de-correspondent-coming-america-innovative-twist-paid-content/

Aqui o site do De Correspondent

 

https://decorrespondent.nl/

 

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