O jornalista Franklin Valverde, presidente da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, concedeu entrevista ao jornal da entidade, o Unidade, na qual destacou a necessidade de se aprofundar a discussão em torno das notícias falsas e defendeu a criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Ele também falou sobre o funcionamento da Comissão de Ética. Confira a entrevista, concedida à jornalista Flaviana Serafim.

Qual o papel e os objetivos da Comissão de Ética dos Jornalistas?

Visa zelar pela ética na profissão atuando quando a Comissão é instigada a dar alguma declaração, a julgar um caso de desvio ou quando a ética profissional tenha sido comprometida. Tem o objetivo de julgar essa infração com relação à prática profissional à luz do nosso Código de Ética, e de zelar pelo cumprimento do código. Porém, a Comissão tem limitações porque as decisões tomadas não têm peso legal. Como não temos um conselho profissional dos jornalistas, isso limita a ação da Comissão porque não temos a força legal que tem outras comissões de ética como a dos médicos e dos advogados, categorias que têm um conselho profissional registrado autarquicamente, mas temos temos, sim, uma força moral, conquistada pelos votos dados pela categoria. Quando há um conselho registrado e o profissional tem qualquer atitude antiética, ele é punido dependendo do grau da infração, com advertência, suspensão, entre outros. No caso dos jornalistas, a pena máxima é ser expulso do quadro de associados do Sindicato dos Jornalistas. Se não for sindicalizado não tem efeito algum, o jornalista continua desempenhando sua profissão e poderá continuar cometendo outros delitos e atitudes antiéticas.

Como está a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalistas?

Legalmente, anos atrás, quando houve a tentativa de formar o conselho de jornalismo – mas o certo é um conselho de jornalistas, não de jornalismo – a iniciativa foi barrada no Congresso Nacional porque era para a criação de uma autarquia, que é o que daria peso de uma regulamentação para punir e até impedir o exercício profissional aos que agem de forma antiética, como acontece com médicos, advogados e outras profissões que têm seu conselho profissional. A criação do conselho é uma das bandeiras da categoria e foi criada até uma associação que luta pela criação desse conselho. Isso é muitas vezes colocado na pauta dos jornalistas, mas num momento de crise que estamos vivendo, às duras penas tentando sobreviver e manter o emprego, e com os sindicatos de todo o país com inúmeras demandas para garantir minimamente as vagas e as condições de trabalho, a questão não é pautada como deveria. É preciso retomar a discussão e esse é um dos aspectos em que a Comissão eleita pode atuar, de reinserir a necessidade da existência de um conselho, de mostrar para a sociedade qual o papel social de um jornalista, qual é sua ética e seu desempenho de forma ética no exercício da profissão, e angariar aliados na sociedade para que futuramente nós consigamos a criação do nosso conselho. É uma das tarefas que estamos nos colocando. Não há isso explicitado em nosso Código de Ética como missão, mas essa Comissão acabou de ser eleita com esse compromisso, de trabalhar para que a sociedade entenda qual é o papel dos jornalistas e nos apoie na criação de um conselho profissional para que faça com que, principalmente as empresas, cumpram eticamente com seu papel.

O que mudou com o processo de eleição, que ocorreu junto com o da direção do Sindicato? E quanto à composição da Comissão, que passa a ser só de jornalistas? O que muda na prática?

A Comissão de Ética dos Jornalistas de São Paulo é a primeira do Brasil, criada logo após o assassinato do Vladimir Herzog pela ditadura militar, em 1975. Quando foi criada, naquele momento muito conturbado e delicado da realidade brasileira, se buscou forças da sociedade civil para compor a Comissão e isso ocorreu até este ano de 2018. Mas não é o usual das comissões de ética profissional. Naquele momento político se fazia necessária essa composição com a sociedade civil porque era uma forma de garantir a vida e a sobrevida dos jornalistas que estavam sendo assassinados, como aconteceu com o Herzog, além dos que estavam sendo perseguidos pela ditadura. Era uma forma de proteção. Com as várias reformas, a redemocratização, a própria Fenaj ajustou sua Comissão de Ética e o que os outros sindicatos de jornalistas devem seguir, que é a composição só de profissionais do jornalismo, como ocorre com outras profissões nas quais quem julga os casos de ética são seus pares. Dentro da prática profissional, seja de qualquer profissão, quem sabe como são essas atuações e qual o desempenho da ética daquela categoria, é a pessoa que está exercendo e que conhece a profissão a fundo, que conhece a deontologia, ou seja, o conjunto de deveres e das regras específicas dessa profissão. Isso é essencial porque, muitas vezes, quando as pessoas não são daquela área de atuação, é complicado dizer se algo foi ético ou não. As comissões anteriores, nas quais participaram representantes da sociedade civil, fizeram um bom trabalho – isso é importante que seja registrado -, mas agora os tempos são outros. Entramos aqui para adequar a Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas aos novos tempos porque, quem discute as questões de ética profissional são seus pares, isso em todas as profissões, e conosco não é diferente.

E quanto à ética jornalística diante da velocidade exigida pela internet?

Nessa velocidade hoje de querer furar, muitas vezes as informações são publicadas de forma errada, e isso é uma coisa que nós jornalistas precisamos refletir – será que vale a pena correr para dar informação? Não vale mais a pena perder 10 ou 15 minutos e checar se aquela informação está correta do que publicar uma correção depois? Investir um pouco na apuração diminuiria o “erramos” na imprensa brasileira. Isso é uma coisa que queremos também divulgar para os colegas, que é ter um pouco mais de cuidado na apuração. A apuração é a alma do jornalismo, assim como a checagem. Vamos fazer isso voltar a ser fundamental porque há uma série de veículos que atropelam para ser o primeiro a publicar e, depois, soltam uma notinha qualquer ou fazem uma correção mal feita, mas quando o estrago já está feito. Muitas pessoas nem vão ver essa correção, acabam replicando e viralizando essas informações erradas. Não se trata só inventar uma mentira por interesse político, como acontece atualmente, a exemplo da campanha eleitoral em que se inventa uma mentira para poder atingir o adversário. O que se trata é de veículos que são sérios, mas que, na ânsia de querer ser o primeiro a publicar, às vezes atropelam a prática do jornalismo, que é a apuração. Se uma informação não está correta, vamos apurar mais até encontrar para ser publicada e divulgada de forma fidedigna não para ser o primeiro, mas para ser o melhor, com uma informação séria. Muitos veículos estão esquecendo seu papel social do jornalismo de levar a informação, de apresentar os vários lados envolvidos numa questão e deixar para o leitor, para o telespectador, para o internauta decidir e analisar o que está sendo apresentado. Hoje, o que mais me assusta são certos veículos que estão tomando o papel de partidos políticos quando deveriam estar acima dos partidos e com um trabalho de reportar todas as visões que estão na sociedade. Em vez disso, esses veículos abraçam uma bandeira como se fosse a voz da verdade, o que é um grande complicador. Os partidos políticos, sejam à direita ou à esquerda, não têm veículos para se colocar e os que são contemplados, em geral os mais conservadores, acabam levando vantagem e é isso que vejo como o maior problema da atualidade no jornalismo.

Isso representa um risco à democracia?

Totalmente, seja na democracia brasileira ou em qualquer país quando não se tem uma empresa de comunicação efetivamente livre – e livre não só para publicar o que quer, mas para a sociedade se manifestar, o que é outro problema no Brasil. Os grandes meios de comunicação estão nas mãos de poucos, pois temos um cartel da informação hoje que determina o que sai e o que não sai neste país. Nós precisaríamos urgentemente de uma democratização dos meios de comunicação. Não a regulamentação, porque a mídia já é regulamentada. Mas a regulamentaram para favorecer quem? Esses conglomerados e cartéis. Nós precisamos é democratizar. A partir do momento que tivermos a democratização dos meios de comunicação, todos os setores da sociedade terão espaço para levantar suas bandeiras porque, hoje, são só aqueles selecionados pelo cartel. Só as bandeiras do cartel é que saem à frente e as outras não aparecem.

De que forma a Comissão pretende atuar quanto às fake news?

Pretendemos atuar de uma forma pedagógica para que a sociedade saiba diferenciar o que é jornalismo do que é fake news. Vemos muitas pessoas “comprando” certas notícias como se fossem jornalísticas, mas que, na verdade, ou são fake news, ou são ficção ou é humor. Pretendemos ter esse papel de esclarecer à sociedade sobre o que é o jornalismo, de despertar nos cidadãos e cidadãs o que se pode ou não confiar. A dica é: antes de qualquer coisa, desconfie.

Como fazer uma denúncia à Comissão de Ética?

A denúncia deve ser enviada à Comissão por meio do Sindicato dos Jornalistas. A comissão é independente da diretoria da entidade, mas é um órgão ligado ao SJSP. A denúncia pode ser individual ou coletiva, e deve vir embasada porque às vezes uma pessoa acha que, pessoalmente, foi prejudicada por não ter sido pautada numa matéria. Já tivemos casos assim e isso não tem nada a ver com falta de ética, mas com o interesse jornalístico. Para isso existem os jornalistas, para selecionar e ver os fatos que realmente interessam para a sociedade e não para uma pessoa específica.

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