O 16º Congresso da SBP JOR (Associação Brasileira de Pesquisadores em  Jornalismo), que começou na quarta-feira (7-11-2018) e termina na próxima terça-feira, está bombando. Deverá ser um dos mais amplos e polêmicos da série promovida pela entidade, iniciada em 2003. A começar pelo tema geral deste ano, “Pesquisa em Jornalismo: dos Conflitos em Pauta aos Conflitos do Campo”, que de certa forma reflete o momento político turbulento que vive o País. Como disse a professora Christa Berger, da Universidade do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul, a última eleição presidencial no Brasil é um caso de conflito político, que teve cobertura dos jornais e das redes sociais.

A mesa temática foi um dos pontos altos do evento, com intensos debates e severas críticas à imprensa brasileira. Christa Berger, uma das palestrantes, bateu forte na grande mídia, que denominou como hegemônica ou corporativa. Segundo ela, esta mídia, no período eleitoral, realizou diariamente o trabalho de conflituar tendenciosamente o cenário político.

 “É só lembrar o Jornal Nacional que, em todas as edições, ofereceu imagens do dinheiro jorrando para anunciar mais um caso de corrupção de políticos, em maior número do PT, para repetir também o mantra “o advogado do indiciado afirma que ele esclarecerá tudo”, ou “não conseguimos contatos com o acusado nem com os seus advogados”, num registro patético, para provar que a Rede Globo cumpre o compromisso da objetividade e da imparcialidade buscando ouvir os dois lados envolvidos no acontecimento. Como não odiar a política e os políticos, se da manhã à noite e em todos os meios o assunto é o mesmo e o enquadramento, igual”, questionou a professora.

Inimiga íntima

Citando filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov, para quem a democracia produz nela mesma as forças que a ameaçam (“os inimigos íntimos da democracia”), e que essas forças são superiores àquelas que a atacam de fora, Berger afirmou: “Pela onipresença na sociedade, pela aparência de legitimidade e pelo poder de dar a ver os acontecimentos, Todorov identifica a mídia hegemônica como a principal inimiga íntima da democracia”.  Segundo o filósofo, nossos imperativos de ação se baseiam nas informações que temos sobre o mundo, mas tais informações, “supondo-se até que não sejam falsas, foram selecionadas, triadas, agrupadas, construídas em mensagens verbais ou visuais para conduzir-nos a tal decisão em vez de outra”.

Na mesma linha de reflexão, a professora citou também o filósofo suíço Alain de Botton, que afirma: “Se há algo que o noticiário habilmente evita focalizar é a si mesmo e a posição predominante que passou a ocupar em nossas vidas. Ele se dirige a nós como uma voz natural e transparente, sem qualquer referência à própria perspectiva tendenciosa. Ele abre mão de deixar claro que não se limita a informar sobre o mundo, pelo contrário, empenha-se o tempo inteiro em modelar um novo planeta em nossa mente, um que esteja de acordo com suas prioridades, muitas vezes bem específicas”.

Segundo Berger, estas duas citações são um bom começo para olhar o jornalismo brasileiro a partir das coberturas que faz. São coberturas que há tempo servem ao poder, mas “a lógica da repetição, que agora tornou vitorioso o presidente recém-eleito, parece ter iniciado uma sistemática mais orgânica com a cobertura as manifestações de rua, em 2013”.

A professora acrescentou: “A mutação das reivindicações da população jovem que iniciou os protestos para interesses políticos anti PT foi trabalho do jornalismo. E desde lá a corrupção associada ao PT e o descrédito no sistema foi se consolidando como uma verdade.” E lembrou o editorial do jornalista Mino Carta na última edição da revista Carta Capital antes da eleição do segundo turno. “À mídia sempre alinhada de um lado só nos permitimos dirigir um apelo ao senso de responsabilidade que o momento exige. Do anti-petismo midiático brotou a terrificante conjuntura em que precipitamos. (...) A mídia entregue ao seu anti-petismo uivante traiu deliberadamente a verdade factual para satisfazer os interesses patronais. Foi decisiva a manipulação da audiência, mas os seus profissionais chegaram, nesta véspera eleitoral carregada de justificados temores, a perguntar se porventura a ameaça Bolsonaro não os inclui”. Para Berger, mal passada a eleição, sabemos que sim, o vitorioso já inclui empresas e profissionais em suas ameaças. 

Para ilustrar suas reflexões sobre o que classificou como “a baixeza de nossas publicações quando estão imersas no jogo do poder”, a palestrante apresentou entre outros exemplos, uma reportagem da revista ISTOÉ, de 6 de abril de 2016, com a matéria de capa,  “As Explosões Nervosas da Presidente”, que traz uma foto de Dilma Roussef com expressão extremamente perturbada ,  manipulada tecnicamente, segundo Berger.  

 “O que choca são os termos da reportagem, com legendas nas fotos reproduzindo as manifestações desvairadas da presidente ou informando que ela se entope de calmantes desde a eclosão da crise (o impeachment). A professora lembra que a reportagem afirmou que “os medicamentos nem sempre surtem efeito”, segundo seus auxiliares. A matéria informa ainda que Dilma tomava os medicamentos rivotril e olanzapina, este último usado para esquizofrenia, mas  com efeito calmante para ela. Berger faz uma observação de indiscutível  pertinência  quanto aos procedimentos jornalísticos da revista ao lembrar que as fontes para informações tão precisas não são identificadas.

A reportagem da ISTOÉ, segundo a professora é um exemplo, entre outros, de que o campo hegemônico do jornalismo brasileiro se comporta como inimigo íntimo da democracia. “Não há democracia sem imprensa livre, mas liberdade que pende só para um lado, pode desservir a democracia”, afirmou.

O repórter e o soldado

O outro palestrante da mesa foi o escritor e professor da Universidade de Sorbone (França) Dennis Ruellan, que fez suas reflexões sobre a produção e circulação de informações pelo poder a partir do tema “A Fronteira entre Repórter e Soldado – o Caso da Guerra da Indochina 1945-1954”. Segundo ele, o poder militar francês fez funcionar ao longo do período do conflito um eficiente esquema para produzir e fazer circular informações com o conteúdo e o viés que favorecessem a França.

De acordo com Ruellan, o exército francês estava perdendo várias batalhas e verificou que nesta circunstância era ainda mais necessário controlar a informação. “Se numa guerra é bom bater no inimigo, melhor ainda, é alimentar a imprensa com conteúdos, fotos e filmes que lhe sejam favoráveis”, afirmou Ruellan, citando um militar envolvido no conflito. Além disso, a França criou jornais e rádios na Indochina para divulgar o que lhe interessava, fazendo valer mais do que nunca a máxima segundo a qual numa guerra a primeira vítima é a verdade. 

O poder militar francês chegou mesmo a criar um corpo de repórteres que iam para as frentes de batalhas para escrever, fotografar e filmar os conflitos. Eram repórteres improvisados recrutados entre os soldados da tropa, que vislumbravam uma oportunidade de escapar de suas origens geralmente modestas, tornando-se “jornalistas”. O esquema funcionou, embora a França tenha saído derrotada do conflito. 

Ruellan afirma que tem se interessado muito por esta fronteira entre repórteres e soldados para entender a relações do jornalismo com a propaganda militar. Mas é uma reflexão que ajuda a compreender também a dinâmica do fornecimento de informações por outros poderes, como o político e o econômico, que muitas vezes são tão manipuladas quanto as informações numa guerra.

Sigilo da fonte e transparência

O professor francês entende que, por isso mesmo, o problema mais importante do jornalismo hoje é a transparência das fontes, que em muitos casos os jornalistas defendem que sejam mantidas em sigilo. “É o início do problema. Não deveria existir sigilo de fonte, até porque ela se manifesta num espaço público, que é o jornalismo”, afirmou Ruellan.   Segundo ele, o jornalista tem a responsabilidade e a obrigação de dizer as condições em que obteve as informações que leva ao público. E fez uma comparação: “O público, da mesma forma como o cliente do restaurante tem o direito de visitar a cozinha para ver como é feita a comida, tem o direito de saber como a informação é produzida”.

As reflexões de Berger e Ruellan demonstram que a imprensa em todo o mundo está diante do desafio de se reinventar, ou até mesmo de resgatar os princípios de verdade, objetividade, imparcialidade e transparência que devem orientá-la. E o desafio não é apenas dos donos dos jornais e dos jornalistas, mas também das fontes, dos anunciantes e dos leitores, porque se a informação é uma mercadoria, é antes de mais nada um bem público.

 

Sobre a escolha do tema

 

Ao definir o tema geral do congresso deste ano, a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBP JOR) considerou que desde a Segunda Guerra Mundial os conflitos nunca estiveram tão presentes nas coberturas e, por extensão, nas pesquisas jornalísticas. 

Para a entidade, a violência e o desrespeito aos mais básicos direitos humanos, e sua diversidade de credos, opiniões, gêneros, etnias e culturas, gera discórdias, exclusões e desigualdades também no Brasil, temática que aparece na cobertura midiática, nas redes sociais e nas pesquisas de campo.

O congresso deste ano teve um expressivo crescimento do número de inscritos. Foram 475, contra 407 do encontro anterior. Em relação aos trabalhos apresentados, o número foi de 298. No evento anterior, foram 264.

Fundada em 2003, a SBP JOR busca agregar estudiosos de uma área específica do conhecimento e tem como propósito atuar com as demais associações, científicas, acadêmicas ou profissionais.

NOTA: O jornalista Antonio Graça está cobrindo o congresso da SBJ JOR e colaborando com a Associação Profissão Jornalista

0
0
0
s2smodern