Passada a perplexidade com os desmandos contra a imprensa por integrantes da equipe do presidente Jair Bolsonaro durante a cerimônia de posse, é hora de algumas reflexões sobre o papel do jornalismo neste novo governo.

Efetivamente, as restrições impostas aos profissionais na cobertura e o tratamento humilhante que lhes foi dispensado ultrapassam o terreno da hostilidade de Bolsonaro para com a imprensa, configurando agora  franca belicosidade. Diante da gravidade dos fatos, depreende-se que o novo presidente está em guerra se não com o conjunto da imprensa, com grande parte dela, principalmente com a chamada mídia tradicional, ou seja, jornais, revistas, emissoras de rádio e TV.

O que chama a atenção é que a cobertura dos ataques à imprensa no dia da posse ficou, com exceção de alguns veículos, como a Folha de S. Paulo, muito aquém da gravidade dos fatos. Foram alguns sites que, na verdade, deram destaque ao assunto. O Estado de S. Paulo em sua edição de 2-01-19, por exemplo, deu a matéria em pé de página e houve até a mais completa omissão dos ataques no noticiário de algumas emissoras de televisão.

A revista Veja (09-01-19.), por sua vez, na reportagem especial sobre a posse, dedicou duas linhas ao assunto e ainda assim minimizou o ocorrido, ao afirmar que o tratamento dado a imprensa “beirou a grosseria”. Grosseria coisa nenhuma. O que houve foi mesmo agressão e humilhação.

Tais decisões editoriais dão lugar a uma indagação: será que a chamada grande imprensa, no conjunto, não foi transigente com os desmandos, indicando, assim, que poderá ter a mesma transigência com o governo Bolsonaro?

Nesse sentido, as lúcidas e corajosas reflexões do jornalista Jânio de Freitas em sua coluna na Folha de S. Paulo (3-01-19) foram ao núcleo da questão. Afirmou, por exemplo, o colunista: “Os jornalistas brasileiros precisam rever muitas condutas. Chega das compensações, por exemplo, para um falso equilíbrio de apoio e de crítica. (...) Ainda no jornalismo profissional são em número excessivo os mais realistas do que os reis. Sua ‘cautela’ chega a fazer mais mal do que bem aos jornais e respectivas empresas. O boicote a comentaristas e repórteres, por motivos ‘ideológicos’ ou políticos, é outra prática de chefias que se volta contra o jornal.”

Sobre os acontecimentos no dia da posse, comenta o colunista: “Eram 1.500 jornalistas na cobertura da posse. Entre serem revistados ao menos duas vezes, obrigados a se apresentar 7 horas antes da posse, serem confinados em cercadinhos, sem direito de ter maçã, iogurte ou garrafas de água; com restrição de acesso ao banheiro e ao bebedouro, o planejado para os  jornalistas foi humilhação generalizada.”

Observa Jânio de Freitas: “Nem por isso a dignidade da profissão mereceu mais que o aborrecimento pessoal. Se respeitada, com a reação proporcional levando a retirada geral, a ausência da cobertura reverteria para Bolsonaro a lição que seu general planejador quis para os repórteres. Mas só uns pouco jornalistas estrangeiros se retiraram.”

O colunista também faz uma reflexão sobre a responsabilidade da imprensa na defesa das conquistas democráticas dos últimos anos, missão que, segundo ele, já integra a concepção de jornalismo consagrada no século passado.

 “O problema é que essa concepção encontra dificuldades aqui. Tanto no poder econômico, que abomina a liberdade de imprensa, como em vícios remanescentes, em parte da própria imprensa. Entre eles, o conflito vivido entre ética e conveniência por inúmeros jornalistas”, afirma. E lembra que a complacência da imprensa com o governo Collor não foi posta em questão, “mas foi muito grande sua responsabilidade pelo desastre”.

A advertência está colocada. O risco da complacência por parte da imprensa com o poder sempre existe e pode comprometer sua missão. Por isso, diante de um governo que já se anuncia como um dos mais autoritários da história da nossa República, mais do que nunca jornalistas e proprietários de jornais deverão lutar pela liberdade de imprensa.

Exatamente porque é parte de sua missão fiscalizar o poder e vigiar os poderosos, a imprensa freqüentemente leva bordoadas de todos os lados. Mas ela também sabe, pode e deve bater quando necessário, para manter sua dignidade e garantir o desempenho de suas funções. Até porque, embates e combates fazem parte de sua lógica e são da natureza da democracia.

Antônio Graça é jornalista e colaborador da APJor.

FOTO: Brasil de Fato

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