A APJor acaba de receber a ficha de associação do colega Antônio Carlos Seidl, que traz na bagagem um livro recente de crônicas do período em que foi correspondente da Folhaem Londres.

Escritas a partir de reportagens publicadas nas décadas de 1980-90, as crônicas de Seidl constituem valiosas reflexões sobre o jornalismo, além de proporcionarem uma agradável releitura de boas histórias de um passado recente.

No livro, lançado no final do ano passado, Seidl revisita reportagens que contemplam uma ampla diversidade de pautas e entrevistados. Revelam como o repórter – e principalmente o correspondente – tem de estar preparado para cobrir todo tipo de assunto e entrevistar personagens dos mais diversos extratos sociais.

Em uma delas, por exemplo, ele entrevista a prostituta Lindi St. Clair que, em 1991, lançou-se candidata ao parlamento britânico. Num texto bem-humorado, Seidl lembra que na entrevista, realizada no bordel de propriedade de Lindi, foi “direto ao assunto, sem preliminares”. Num relato marcado pela franqueza, a cortesã contou que já tinha sido presa, multada em altas quantias por manter um bordel, além de pagar propinas para a polícia.

Revelou ainda ser do Corrective Party, um partido nanico fundado em 1988, que se propunha a “abolir as leis arcaicas” sobre a prostituição na Grã-Bretanha. A campanha do partido defendia a legalização da atividade, o que ajudaria na luta contra a Aids e removeria o elemento criminoso de “um serviço social vital”. Depois de tentar onze vezes, sem sucesso, uma cadeira na Câmara dos Comuns, onde disse que tinha “mais de duzentos clientes”, Lindi desistiu da candidatura.

Um herdeiro do trono ambientalista

Outra entrevista da coletânea foi realizada com Charles Philip Arthur George, o príncipe Charles, herdeiro do trono britânico. Seidl apresenta um membro da realeza apaixonado pela causa verde, extremamente preocupado com a sustentabilidade da Terra, proprietário uma fazenda de agricultura orgânica, descontraído e muito bom de conversa.

As duas entrevistas, que vão de um extremo a outro do arco social da Grã-Bretanha, deram origem ao bem sacado título do livro.  Mas como se verá ao longo das 22 crônicas do livro, Seidl entrevistou também escritores, cientistas, políticos, filósofos roqueiros, atores, freiras, esportistas e, inclusive, jornalistas, em reportagens que compõem um breve, mas intenso painel da vida em Londres naquela época.

Segundo Seidl, a correspondência internacional é uma atividade fascinante, mas também um desafio. “O correspondente recebe muitos pedidos de diversas editorias para cumpri-los sob pressão e dentro de prazos curtos. A correria, porém, faz parte do cotidiano da imprensa. Os jornalistas são estimulados pelos prazos curtos de fechamento da edição diária. Escrevemos melhor quando não temos tempo”, conta Seidl na apresentação do livro.

O trabalho é ainda mais duro para o jornalista de um país da periferia do capitalismo. “Nesse caso, o correspondente desempenha ao mesmo tempo as três tarefas do repórter, que pode ser setorial, geral e especializado. Atua, muitas vezes, também como repórter fotográfico, além de ser seu próprio telefonista e ofice-boy”, conta Seild.

Mar calmo não faz bom marinheiro

Assim mesmo vale a pena, diz o jornalista, lembrando que mar calmo nunca fez bom marinheiro. E cita o antropólogo americano Stephen Hess, autor do livro Through Their Eyes(algo como Através dos Olhos Deles), no qual traça um perfil da categoria, que afirma: “O melhor emprego do mundo, depois de ter sido correspondente estrangeiro, é ser correspondente estrangeiro novamente.”

A afirmação faz lembrar o escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez, também um grande jornalista, que uma vez disse que o jornalismo “é a melhor profissão do mundo”. Pode até ser que sim, inclusive pelo glamour, de fato presente na atividade.

Mas nesses tempos em que tantos querem ser jornalistas e muitos se auto-declarem como tais, é bom lembrar que glamour é apenas uma pequena parte da profissão. Como se verá neste livro, ser jornalista exige, entre outros atributos, técnica, disciplina, ética, cultura geral, versatilidade e até mesmo sorte, como mostra Seidl.

Ficha

Do Palácio ao Bordel – Crônicas e segredos de um jornalista brasileiro em Londres

Antonio Carlos Seidl

Editora Grua

240 páginas

R$ 44

http://www.grualivros.com.br/lancamentos/do-palacio-ao-bordel

*Antonio Graça é colaborador da APJor

 

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