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O livro O Crime da Galeria de Cristal, de Boris Fausto, lançado no final do mês passado, é a segunda incursão do historiador na narrativa de crimes. São três histórias de rumorosos assassinatos ocorridos em São Paulo na primeira metade do século XX, numa cidade ainda provinciana, mas que já apresentava algumas características da metrópole frenética e vertiginosa que se tornaria alguns anos depois.

Embora Fausto tenha usado outras fontes, como os processos, foi nos jornais que colheu a maior parte das informações para reconstituir a história desses crimes. Nesse sentido, o autor faz interessantes reflexões sobre o uso da matéria jornalística como fonte histórica e sobre a “aproximação entre o fato em si e a narrativa do jornal”.

Panorâmica da imprensa da época

A obra, que traz várias fotos e ilustrações, dá também uma panorâmica da imprensa brasileira na época, apresentando aspectos como o sensacionalismo e o estilo redacional grandiloqüente dos jornais, com manchetes bombásticas, do tipo “Mais sanguinário do que as próprias feras”.

As narrativas eram marcadas ainda pela descrição minuciosa das cenas dos crimes, das pessoas envolvidas e até das roupas que vestiam os réus nos depoimentos e julgamentos. Tudo mesclado com uma boa dose de opinião dos próprios jornalistas, que tomavam partido dos acusados ou das vítimas e demonizavam os criminosos ou tentavam amenizar as acusações contra eles.  

O Crime da Galeria de Cristal, como ficou conhecido, que dá título ao livro, aconteceu numa terça-feira de Carnaval, 24 de fevereiro de 1909, quando Albertina Barbosa, com a cumplicidade de Eliziário Bonilha, seu marido, matou a tiros e com um corte a faca na garganta o advogado Arthur Malheiros de Oliveira, que a tinha seduzido quatro anos antes. Albertina tinha 22 anos, Bonilha, 21 e Malheiros, 25.

A Galeria de Cristal entrou na história porque ficava no cenário em que o crime ocorreu. Ficava num imponente prédio do centro da cidade e seu nome era uma referência à cobertura de vidro, que permitia a entrada da luz natural. Foi nessa galeria, que ligava as ruas Quinze de Novembro e Boa Vista, que Malheiros e Bonilha subiram um lance escadas para chegar a um dos quartos do Hotel Bella Vista, onde estava Albertina, armada de um revólver e de uma faca.

Cobertura emocionante

O crime logo ganhou as páginas dos jornais, como o Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo, o Commercio de São Paulo e O Paiz numa longa e emocionante cobertura jornalística, que teve características de um autêntico folhetim. O caso ocupou grandes espaços nos jornais até 1911, quando Albertina foi finalmente absolvida no seu quinto julgamento.

Os outros dois crimes narrados no livro aconteceram em 1908 e 1928 e ficaram conhecidos os “crimes da mala”. No primeiro, o comerciante Michel Trad assassinou seu sócio Elias Farah, que teria tido um caso com sua mulher, e ocultou o corpo numa mala. No segundo, o imigrante italiano Giuseppe Pistone matou a esposa, Maria Fea, que havia denunciado a intenção do marido de extorquir um primo, e também guardou o corpo numa mala.

O livro anterior de Fausto do mesmo gênero é O Crime Do Restaurante Chinês. Lançado em 2009, é sobre um caso de 1938, quando Ho-Fung, proprietário de um restaurante de comida oriental, sua mulher e dois empregados foram assassinados.

Ficha

O Crime da Galeria de Cristal e Os Dois Crimes da Mala – São Paulo, 1908-1928

Boris Fausto

Companhia das Letras

256 páginas

R$ 64,90

*Antonio Graça é colaborador da Associação Profissão Jornalista

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