Num cenário marcado por profundas mudanças, crises, conflitos e desafios para o jornalismo e a sobrevivência dos jornalistas, uma ampla e profunda pesquisa recentemente divulgada pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT), da ECA-USP é uma valiosa contribuição para entender os novos rumos da atividade jornalística e de seus profissionais.

Tendo como objeto “as relações de comunicação e as condições de produção no trabalho de jornalistas em arranjos econômicos alternativos às corporações de mídias”, o estudo foi realizado entre 2016 e 2018 e seu relatório recentemente divulgado.

Na forma de coletivos, associações, pequenas empresas ou ONGs, estes arranjos mantêm sites, blogs e outros meios, geralmente na internet, que veiculam informações, análises e opiniões sobre diversos assuntos de interesse da sociedade, da política ao meio ambiente, do feminismo à questão racial e à inclusão social.

Embora a maioria desses arranjos tenha dificuldades em se estabelecer com autonomia financeira, estão se multiplicando e podem constituir uma alternativa profissional para os jornalistas.

“Desde que os engajados nesse trabalho se juntem para maior sinergia e conquista de políticas públicas para apoiar o desenvolvimento dessas iniciativas”, afirma a professora Roseli Fígaro, que coordenou a pesquisa.

Nesse sentido, a professora faz alguns questionamentos: “Por que o Estado fornece gratuitamente a concessão de radiodifusão? Por que o Estado banca com a publicidade oficial os grandes veículos de comunicação? Por que o Estado beneficia com isenção ou redução de taxas os veículos de comunicação tradicionais (jornais sobretudo)? E por que não administrar um fundo público para o jornalismo alternativo e independente?”

E afirma: “É preciso defender o direito inalienável do cidadão à informação, o direito ao trabalho dos jornalistas, bem como os fundamentos da profissão.”

Metodologia complexa

Com uma metodologia complexa e sofisticada, necessária até porque seu objeto é movediço e está em construção, como registra o relatório, a pesquisa, envolveu 70 arranjos alternativos da região metropolitana de São Paulo.

O estudo apresenta vários dados quantitativos, informações sobre as pessoas com eles envolvidas, assim como análises sobre a sua organização, assuntos que cobrem, as formas como operam e as fontes de financiamento, entre outros aspectos.

A pesquisa apontou ainda que esses arranjos não apenas apresentam formas de viabilizar alternativas de trabalho, mas também demonstram a insatisfação com o jornalismo das grandes empresas e as injunções mercadológicas nas redações. Embora não descuidem das questões financeiras, a prioridade é fazer um bom jornalismo, resgatando os valores éticos e as boas práticas.

São aspectos que, segundo esses profissionais, os grandes conglomerados de mídia, na voracidade com que buscam o lucro, muitas vezes menosprezam ou colocam em segundo plano.

Jornalismo plural

Há nesses arranjos forte compromisso com um jornalismo plural, isento e democrático, que resiste às dificuldades econômicas, à violência, à vigilância dos organismos e às forças do stablishment.

Nesses tempos em que vivemos, turvados por ódio, desilusão e fakenews, aos quais frequentemente o mainstream da mídia sucumbe, essas novas formas de fazer jornalismo constituem interessantes possibilidades.

Como a imprensa está sempre se reinventando e surpreendendo, elas podem, sim, emplacar. E quem sabe não nos ajudem a reconstruir nossas sociedades, para torná-las mais tolerantes, mais animadas e mais bem informadas.

O relatório foi publicado em livro (As relações de comunicação e as condições de produção no trabalho de jornalistas em arranjos econômicos alternativos às corporações de mídia), de 245 páginas.

Está disponível gratuitamente no endereço www.eca.usp.br/comunicacaoetrabalho, em PDF.

 

* Antonio Graça é colaborador da APJor

 

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