"Fazer jornalismo hoje em dia é um ato de coragem". A afirmação foi feita pela jornalista Carla Jimenez, diretora do El Pais Brasil, num seminário realizado em São Paulo na sexta-feira passada (03/05), Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

A frase resume bem a situação do jornalismo atualmente, alvo de ações que tentam destruir sua legitimidade e credibilidade, assim como a situação dos jornalistas, vítimas de várias formas de violência, como assassinatos, intimidações e linchamentos virtuais.

Realizado pela Abraji, Faap e pelo Consulado do EUA em São Paulo, com o tema “Liberdade de Imprensa na Era Digital”, o seminário debateu diversos aspectos do cerceamento à atividade jornalística, com a presença de representantes da imprensa e de entidades do setor, nacionais e internacionais.

Mesmo nos Estados Unidos, nação que é referência mundial em matéria de liberdade de imprensa, as coisas não vão bem. “É crescente o número de pessoas que dizem não confiar mais na imprensa. E se as pessoas não podem mais acreditar na imprensa, estamos numa situação difícil”, afirmou Jane Kirtley, professora de ética da mídia na Universidade do Minnesota.

A jornalista e professora trabalhou por 14 anos no The Reporters Committee for Freedom of the Press (Comitê de Repórteres pela Liberdade de Imprensa), organização de jornalistas existente nos EUA.

Fakenews provocam descrédito

O atual descrédito da imprensa é provocado em grande parte pelas fakenews, que, embora sejam produzidas predominantemente pelas mídias sociais, contaminam o resultado do trabalho dos jornalistas profissionais.

“As pessoas que produzem fakenews não querem informar, mas comunicar ideologia, distorcer para mudar a percepção da realidade e manipular as pessoas”, acrescentou.

No entanto não é com mais regulamentação que vai se resolver o problema. Até porque há sempre o risco de regulamentações criarem brechas que venham a restringir a liberdade de expressão.

“Não acho que as autoridades, sejam do Executivo ou do Legislativo, sejam os mais indicados para estabelecer o que é verdade ou não. Até porque muitas vezes autoridades estão em oposição à mídia, que exerce seu papel de vigilância para manter estas autoridades na linha”, ponderou Jane Kirtley.

Segundo ela, a solução deve vir do próprio público e dos jornalistas. Os leitores devem buscar veículos que tenham credibilidade e os jornalistas precisam valorizar ainda mais a transparência e checar cada vez mais as informações que publicarão.

“E se os jornalistas errarem, devem fazer a devida retificação, porque jornalistas erram e erro não é fakenews. O público reconhece quando se admite o erro e a transparência aumenta a credibilidade”, afirmou a professora.

O diretor para América Latina da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Emmanuel Colombié, por sua vez, destacou em sua palestra que atualmente menos de 10% das pessoas em todo o mundo vivem em países com condições satisfatórias de liberdade de imprensa.

Mecânica do medo

Colombié falou também sobre a violência contra comunicadores, a partir do da criação do que chamou de “mecânica do medo”, que visa calar os jornalistas. Afirmou que os dados da RSF apontam que 80 comunicadores jornalistas foram mortos em 2018 em todo o mundo e que diminui o número de países onde jornalistas podem exercer a profissão com segurança.

O diretor da RSF disse também estar preocupado com o crescimento de outra forma de violência contra jornalistas, que são os assédios on line, configurando muitas vezes verdadeiros linchamentos virtuais. Lembrou que nesses casos as mulheres jornalistas são as mais afetadas, constituindo 2/3 das vítimas.

Mas segundo ele existem algumas ferramentas simples que os jornalistas podem usar para se defender, como reforçar a segurança digital, protegendo as VPNs (rede particular virtuais) por meio de firewalls, criando senhas fortes e até mesmo desenvolvendo “algum senso de paranóia”.

No segundo painel do seminário, o vice-presidente da Abraji, Guilherme Amado, também manifestou sua preocupação com os ataques virtuais a jornalistas, especialmente pelos danos emocionais que provocam nos profissionais.

A Abraji, segundo Amado, tomou algumas iniciativas para ajudar na proteção dos jornalistas. “Temos uma cartilha para orientar a defesa e fizemos uma parceria com a OAB para orientar jornalistas sob ataque”, afirmou.

Batalha vitoriosa

Carla Jimenez, por sua vez, destacou em sua fala a batalha judicial vitoriosa do El Pais Brasil e da Folha de S. Paulo para entrevistar o ex-presidente Lula na prisão, o que contribuiu para reafirmar a liberdade de imprensa no Brasil, num cenário em que são muitas as tentativas de enfraquecer o exercício do jornalismo.

“Acho fantástica a possibilidade de usar esse momento amargo que vivemos para nos fortalecermos e enfrentarmos os desafios”, disse Carla Jimenez. Também mencionou a questão dos linchamentos virtuais, quando afirmou que fazer jornalismo hoje é um ato de coragem.

O diretor de redação da Folha de S. Paulo, Sérgio Dávila, focou sua palestra nos ataques que o presidente Jair Bolsonaro vem fazendo ao jornal. Exibiu vídeos em que o presidente aparece gesticulando histericamente e usando toda sorte de violências verbais para atacar o jornal, especialmente depois da publicação da reportagem “Empresas Bancam Disparo de Mensagens Anti-PT nas Redes”, de Patrícia Campos Mello.

Atacada nas redes

Publicada em 18/10/2018, a reportagem envolvia uma empresa que apoiava o então candidato à presidência. Dávila contou que a repórter passou a ser atacada nas redes sociais e chamada, entre outras coisas, de “vagabunda comunista”, além de sofrer várias ameaças.

O painel foi encerrado pelo jornalista Ricardo Gandour, diretor-executivo da rádio CBN. Ele manifestou sua preocupação com fato de alguns governantes, como Jair Bolsonaro e Donald Trump, estarem usando as redes sociais para se comunicar diretamente com a sociedade e tentando anular a mediação da imprensa e fragilizá-la com instituição.

Para ele, embora as redes sociais tenham seus aspectos positivos, esta tendência de comunicação direta dos governos pode ter consequências bastante desastrosas. “A imprensa é uma instituição e uma instância de mediação, que informa com profissionalismo e identidade”, afirmou.

E acrescentou: “Não o se pode, por exemplo, substituir o Diário Oficial pelo Twitter, uma empresa privada cuja governança nem sequer conhecemos muito bem.”

Para Gandour, o enfraquecimento da imprensa como instituição significa a fragilização da democracia. Segundo ele, isso coloca em risco a própria liberdade social e se nada for feito para reverter esta situação, “vamos todos nos ferrar, governantes e governados”.

*Antônio Graça é colaborador da Associação Profissão Jornalista

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