Cientista político e jornalista free-lancer, Mounk ressalta o papel das mídias sociais nos ataques à democracia

A desconstrução da democracia liberal e a emergência de governos populistas e autoritários em diversos países é uma pauta hoje recorrente na imprensa mundial.  O tema também é o objeto do livro O Povo Contra a Democracia, do cientista político alemão Yascha Mounk, publicado no ano passado nos Estados Unidos e lançado agora no Brasil.

Para a edição brasileira, Mounk escreveu um prefácio em que compara a campanha do eleitoral do presidente Jair Bolsonaro à de Donald Trump, nos Estados Unidos. Segundo o autor, Bolsonaro é “o adversário mais poderoso que a democracia brasileira enfrenta em meio século”.

Considerado um dos melhores livros de 2018 por diversas publicações, entre elas o Financial Times, o livro é uma profunda análise da questão, mas escrito numa linguagem simples e agradável, sem malabarismos conceituais ou estilísticos, que o torna acessível a todos os que se interessam pelo assunto.

O jornalismo, no epicentro do furacão

A obra menciona vários aspectos da situação da imprensa no contexto das ações contra a democracia liberal e tem um capítulo sobre as mídias sociais, de especial interesse para jornalistas e outros comunicadores.

Como mostra Mounk – que também é jornalista free-lancer –, o jornalismo está no epicentro do furacão político do populismo autoritário, antiliberal e antidemocrático, cujos governos tentam deslegitimar e desacreditar a imprensa, além de disseminar fakenews.

Segundo Mounk, são três as causas que levam os cidadãos a elegerem governos populistas e autoritários: a estagnação do padrão de vida, o medo da democracia multiétnica e a ascensão das mídias sociais.

Rever este quadro político atual exige, conforme o cientista político, reformas radicais que impeçam as democracias se tornarem “tiranias da maioria”.

O papel das mídias sociais

Sobre o fenômeno das mídias sociais, o autor demonstra que num passado recente havia um número limitado de veículos centralizados – redes de TV e de rádio, jornais e editora – e muitos receptores.

O quadro hoje é bem diverso. A Web hoje permitiu que muitos cidadãos transmitissem suas opiniões para o mundo inteiro.

 “A promessa inerente de comunicação um-para-muitos finalmente fora democratizada”, afirma. Mas com o surgimento as redes sociais a comunicação tornou-se muitos-para-muitos, fazendo com que “os maiores atores nesse jogo perdessem grande parte de sua capacidade de controlar a disseminação de idéias e mensagens que repercutem entre pessoas comuns”.

Contemplando tanto os aspectos positivos quanto os negativos das mídias sociais, o autor afirma que a invenção da tecnologia de comunicação digital tem um grande efeito político. E pergunta: “Mas a perda da influência dos difusores tradicionais de informação irá empoderar as pessoas comuns e impulsionar a democracia – ou já causou estragos ao dar aos populistas a plataforma de que precisavam para envenenar nossa política?”

Tecnologia da libertação?

Segundo Mounk, há bem poucos anos a maioria dos observadores estava muito otimista. Ele cita o sociólogo americano Larry Diamond que, em 2010, que, numa das primeiras análises do que chamou de “Tecnologia da Llibertação”, afirmou: “As novas ferramentas digitais empoderam os cidadãos, que transmitem notícias, denunciam delitos, exprimem opiniões, mobilizam protestos, monitoram eleições, vigiando o governo, aumentando a participação e expandindo os horizontes da liberdade”.

Mounk lembra que por volta de 2015 o senso comum sobre as mídias sociais era predominantemente positivo. “Desde então essa percepção virou de cabeça pra baixo”, afirma. E pondera que o próprio Diamond, em sua análise, fez questão de salientar que as novas ferramentas digitais podem ser utilizadas para o bem ou para o mal.

O potencial negativo das mídias sociais é de fato uma realidade. Por isso mesmo elas precisam ser objeto de novas análises e mais bem observadas daqui para frente, de forma que não sejam, por exemplo, utilizadas por populistas autoritários, como vem acontecendo recentemente, para solapar os elementos da democracia liberal.

Mesmo porque, como adverte Mounk, os populistas, desimpedidos das coibições do antigo sistema midiático, “estão preparados para fazer o que for necessário para serem eleitos – mentir, confundir e incitar o ódio contra os demais cidadãos”. 

Ficha

Título: O Povo Contra a Democracia

Autor: Yascha Mounk

Editora: Companhia das Letras

Volume: 448 páginas

Preço: R$ 79,90

 

*Antonio Graça é colaborador da APJor

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