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A biografia de Roberto Marinho, fundador e proprietário da Rede Globo de Televisão, Roberto Marinho: o poder está no ar, de autoria do jornalista do Estadão, sucursal de Brasília, Leonencio Nossa, vem a lume exatamente no ano em que o principal programa da casa, o Jornal Nacional – o programa televisivo de maior audiência do Brasil – completa 50 anos desde sua primeira edição, em setembro de 1969.

A trajetória do jornalista e empresário, filho do também jornalista Irineu Marinho, fundador de O Globo, e que enriqueceu e ganhou músculos durante a ditadura militar, traz muitas curiosidades e tenta retratar o lado humano de um dos homens mais poderosos da história do Brasil no século XX. Poderoso a ponto de ser cortejado e temido por todos os presidentes desde a década de 1960.

Também autor de Mata! – o Major Curió e a Guerrilha do Araguaia, lançado em 2012, que enfoca a trajetória de Sebastião Curió, um dos militares que combateu a luta armada patrocinada pelo PC do B nos confins da Amazônia, Nossa, repórter experiente e detalhista, foca seu olhar nos bastidores da política, nos conflitos na família, dramas da imprensa e, acima de tudo, na própria história do Brasil desde o início do século XX, mais especificamente desde 1904, quando o personagem nasceu.

No livro, o autor passa pela década de 1920, a fundação de O Globo como um jornal médio no Rio de Janeiro, então capital federal e vai até a primeira edição do Jornal Nacional, em 1969, ou seja, ainda não enfoca o período em que o biografado se tornaria um dos homens mais poderosos da República.

Em 100 entrevistas num total de seis anos de pesquisa, Nossa disseca a história do “Doutor Roberto”, como Marinho era tratado por amigos, funcionários e inimigos. O autor tenta não tomar partido, o que não é tarefa fácil, convenhamos, em se tratando de um personagem tão envolvido em polêmicas e em acordos e negociação com o poder.

Um segundo volume, que irá até sua morte, em 2003, ainda está em discussão. “Na nossa profissão, por mais que muita coisa tenha mudado do ponto de vista tecnológico, a essência de fazer jornal é a mesma no século XIX e em todo o século XX, que é a vontade e o interesse do jornalista em levantar a história de sua comunidade, de seu país. E é esse o espírito do jornalismo que permeou a história de Roberto Marinho”, explica Nossa, em entrevista recente.

O maior empresário da comunicação brasileira desde aquela época, quando desbancou o então poderoso magnata da imprensa Assis Chateaubriand, era uma personagem polêmica e controvertida, principalmente após sua conversão à causa do regime militar, que defendeu como poucos.

Na obra, ficamos sabendo que Roberto Marinho, filho de Francisca e do jornalista Irineu Marinho, nasceu em 3 de dezembro de 1904, num pequeno sobrado do bairro do Estácio, na zona norte do Rio. O pai, um profissional dedicado e metódico, que segundo sua lembrança “dava broncas terríveis sem elevar o nível da voz”, havia fundado o primeiro jornal vespertino do Rio, “A Noite”, no início do século XX.

Em 1925, o pai iria mais longe ainda ao criar O Globo, concorrendo com veículos tarimbados como o Jornal do Brasil e o Correio da Manhã, totalmente integrados à cidade.

O jornalista crioulo - Na obra, aparece um Marinho mulato e rejeitado na então capital federal por ser “crioulo”. Alguém que lutou muito para ser aceito pela elite da cidade. Tinha grande ligação com o samba e chegou a ganhar do compositor Sinhô, seu grande amigo, uma música em sua homenagem “A Cocaína”.

No Estácio, onde nasceu e passou toda a juventude, convivia com os principais sambistas da época. Donos de jornais concorrentes chegavam a usar a cor da pele para atingir Irineu Marinho e seus veículos de comunicação. “O pai foi uma figura solar na vida dele, com todos os problemas de relacionamento que tinha”, afirma o autor. Em uma discussão entre ambos, Irineu afirmou que Roberto não seria capaz de resolver uma determinada questão escolar. Encolerizado, o filho respondeu que “não fazia provas de amanuense”.

Quando o pai morreu, pouco depois da fundação do jornal, Marinho tinha apenas 20 anos e atuava como repórter, testemunhando fatos que mudaram a história do Brasil. Depois, se tornou diretor e redator-chefe do jornal da família. Ao completar 65 anos, era um empresário bem-sucedido da comunicação e, em 1965 – numa ditadura militar ainda jovem – hipotecou todos os seus bens para fundar a Rede Globo de televisão.

Até morrer, com 98 anos, em 2003, ajudou a definir um padrão de qualidade para a TV brasileira e foi amado e odiado. Também se tornou imortal, ao conquistar a cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

O dono da Globo deve a alguns parceiros importantes muito do seu sucesso e de sua influência nos círculos poderosos da República. Personagens que circulavam nas sombras do poder foram fundamentais para que ele obtivesse cada vez mais poder. Entre outros podem ser citados Hebert Moses, advogado e jornalista, o poeta Augusto Fredericho Schimidt, depois ligado diretamente à implantação da ditadura militar, e o advogado Jorge Serpa, citado por seus filhos como “guardião das trevas”.

Esses amigos, totalmente “desinteressados”, foram fundamentais para que ele obtivesse sua concessão de TV e conseguisse se aproximar de alguns dos mais poderosos presidentes da República antes e durante o regime militar. A colaboração do antigo “jornalista crioulo” foi determinante para que a ditadura subsistisse por 21 anos. E ele, certamente, foi muito recompensado por isso.

Censura e DIP - Aliás, também descobrimos, por meio da obra, que Marinho integrou o conselho do poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura à imprensa fundado por Getúlio Vargas e dirigido por Lourival Fontes. Na repartição, o jornalista-empresário negou registros a jornais de esquerda e se calou diante da encampação pelo governo do jornal A Noite, fundado por seu pai, que estava na ocasião nas mãos de um adversário político.

Ao mesmo tempo, se colocou contra a intervenção de Getúlio no jornal O Estado de S. Paulo – o Estadão faz questão de não contar em sua história o período de cinco anos em que ficou sob ordens da ditadura do Estado Novo -, mas, ao mesmo tempo, elogiou o trabalho do interventor, colocado lá quando o ditador afirmou, em uma mentira flagrante, que o jornal estaria estocando armamento em sua sede para se opor ao Estado Novo.

No Estadão desde 2011 e ainda autor de outros três livros, Nossa repórter capixaba radicado em Brasília, demonstra muita clareza sobre qual foi a sua responsabilidade ao se propor a escrever uma biografia independente de Roberto Marinho: “É a história, talvez, do personagem mais influente da história brasileira e que, com maior ou menor grau, influenciou nossa história, para o bem ou para o mal. Não falo apenas na questão política ou econômica, mas de costumes”, diz, em entrevista recente.

CPI da Time Life - O autor teve acesso ao relatório integral e a todos os documentos que compuseram uma das mais emblemáticas comissões parlamentares de inquérito (CPIs) relacionadas a questões de imprensa da história do Brasil: a CPI do caso Time Life – Globo, ainda antes da ditadura militar, na década de 1960, quando o Parlamento investigou um acordo – muito suspeito por sinal – em que a Globo fazia uma associação com o grupo americano Time Life, driblando a legislação da época que proibia empresas estrangeiras de serem donas de órgãos de comunicação brasileiros.

“Marinho enfrentou Chatô (Arthur Chateaubriand), dono da concorrente Tupi, o deputado João Calmon e o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, e saiu derrotado, mas ainda assim foi bom para ele. A Time Life deixou de ser sócia e virou credora e a emissora contratou o Walter Clark.” O diretor ajudou a mudar a cara da Globo, trazendo novos padrões de qualidade e programação.

De acordo com o jornalista e escritor, o seu trabalho foi pautado pela transparência. “Foi o mais transparente possível, deixei claro que não buscava uma radiografia, muito menos um livro chapa branca. Estava em busca de informações e, em uma biografia, você depende muito da família. O adversário não tem as informações necessárias para você trabalhar o personagem”, afirmou.

O autor teve acesso a cartas pessoais, anotações e outros documentos do biografado guardados com a família ou nos arquivos da Biblioteca Nacional. Entre os entrevistados, figuram amigos, parentes, colegas de trabalho e adversários ferrenhos de Marinho.

A obra permite que saibamos que Roberto Pisani Marinho, seu nome completo, adorava samba e divertir-se numa Rio de Janeiro do começo do século passado – imensamente diferente da atual, naturalmente – enquanto o seu pai era um dedicado jornalista da Gazeta de Notícias, onde trabalhou antes de criar seu próprio jornal. O filho era um bom vivant, um dândi numa capital federal efervescente, mas ao mesmo tempo tranquila, da Primeira República.

Ao morrer o pai, apenas 21 dias depois de colocar no ar o jornal O Globo, Roberto Marinho assumiu seu lugar e deixou claro para a mãe que continuaria a trajetória de Irineu, mas assumindo o seu próprio papel. “Estou seguro que terei sucesso, mas a senhora não vai colocar os pés lá”, disse, em tom autoritário para ela, que havia lhe proposto, pouco tempo antes, que vendesse a publicação. “Não vou vender coisa nenhuma”, retrucou na ocasião.

Em entrevista recente ao jornal O Globo, Nossa definiu Marinho como um “pauteiro”, jornalista encarregado de levar novas histórias ao veículo em que trabalha. “Ele fez isso a vida inteira, mesmo depois de se tornar um empresário poderoso”, justifica.

O pai do biografado, Irineu Marinho, provavelmente mereceria, também, uma bem pesquisada biografia. “Ele era da turma do líder abolicionista José do Patrocínio, de André Rebouças (um engenheiro negro, considerado um gênio de sua área, que dá nome a uma famosa avenida em São Paulo e também foi um lutador contra a escravidão) e de Nilo Peçanha, político carioca que combatia as oligarquias agrárias de São Paulo e Minas Gerais”, conta o autor, em entrevista à Folha de S.Paulo.

Irineu chegou a ficar preso por quatro meses, acusado de subversão. Em suma, independente de preferências políticas e de apreço pelo personagem, vale a pena conhecer a história de um dos homens mais influentes do Brasil no século XX. O livro colaborará muito nesse sentido.

Serviço : Roberto Marinho: o poder está no ar – do nascimento ào Jornal Nacional – Nova Fronteira, 576 páginas, R$ 89, 90 (preço médio)

*Moacir Assunção é associado e colaborador da APJor

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