Num tempo em que os jornalistas ficavam enclausurados nas redações, ele dava um rolê pelas ruas e subia os morros da cidade do Rio de Janeiro para escrever suas reportagens e crônicas.

Entre o final do século XIX e início do XX, foi um precursor do jornalismo literário, quando não se falava nisso no Brasil, e ainda nem tinham nascido Gay Talese e Tom Wolf, dois expoentes do gênero nos Estados Unidos.

Estamos falando do jornalista e escritor João do Rio, um dos pseudônimos de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, um nome tão grande quanto seu talento, que foi também dramaturgo e tradutor, e deixou uma extensa obra, embora tenha morrido de enfarte aos quarenta anos.

Uma parte dessa obra pode ser lida no livro Crônica Folhetim Teatro, lançado agora em um volume pela editora Carambaia, depois da edição de um caixa com três volumes, atualmente esgotada.

O jornalismo como “grande arte”

Na bela apresentação de Graziela Betting, que também selecionou os textos do livro, há uma citação do próprio João do Rio, uma anotação deixada em seus arquivos e encontrada por sua mãe, Florência Barreto, que resume bem o que ele pensava sobre jornalismo literário: “Se a minha ação no jornalismo brasileiro pode ser notada é apenas porque desde o meu primeiro artigo assinado João do Rio eu nunca separei o jornalismo da literatura e procurei sempre fazer do jornalismo uma grande arte”.

Foi com este entendimento da arte do jornalismo que ele escreveu sobre a vida da cidade do Rio, da recém-inaugurada Avenida Central, onde trafegava uma sociedade que vivia como espelho de Paris, à favela, com suas “pocilgas indescritíveis”.

Seus temas iam de uma partida de futebol, esporte então estreante na época, à vida num presídio e às pessoas nas janelas ou a última viagem de um bonde puxado por burro.

Como registra Graziela, ele percorreu os subterrâneos da cidade para entrevistar o povo numa época em que não se dava voz aos pobres.

Denunciou as más condições de vida dos humildes, subiu o morro para desvendar ao leitor o que era uma favela, mas também descreveu os ambientes requintados, os hábitos importados e os luxos dos ricos, contemplando o conjunto da vida do Rio,

Tudo com um jeito muito próprio de viver e com um figurino bastante peculiar, composto por cartola, fraque verde (combinando com a bengala), monóculo e charuto. Era um dândi tropical e excêntrico, freqüentando dos bas-fonds às altas rodas, mas sempre com muito estilo.

Muito admirado por seu talento – entrou para a Academia Brasileira de Letras aos 29 anos –, era também alvo de críticas e ataques, inclusive físicos, por ser mulato e homossexual numa sociedade fortemente preconceituosa. Nada disso, porém impediu que fizesse uma trajetória brilhante no jornalismo e na literatura.

Um dos primeiros a viver da profissão

Como consta da apresentação do livro, perto de 1910 João do Rio vivia o ápice de sua carreira. Publicava em vários jornais e revistas – Cidade do Rio, Gazeta de Notícias e O Paiz foram alguns – e era um fenômeno de vendas nas livrarias. Num tempo em que jornalismo era bico de funcionários públicos e políticos, ele foi um dos primeiros a viver integralmente da profissão.

João do Rio morreu em junho de 1921, quando teve um ataque do coração dentro de um táxi, ao deixar o jornal onde trabalhava. O velório, aberto ao público, durou quatro dias. O corpo do jornalista e escritor estava vestido com o fardão da Academia Brasileira a de Letras.

Como registra Graziela Beting, passaram por lá ex-presidentes, ministros, senadores e deputados. Mas também damas da sociedade, estivadores, pescadores, atores, vagabundos e miseráveis.

Ficha

Título: Crônica Teatro Folhetim

Autor: João do Rio

Editora: Carambaia

Volume: 544 páginas

Preço: R$ 58,90

*Antônio Graça é associado e colaborador da APJor

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