O jornalista americano Seymour Hersh afirma, na introdução do seu livro de memórias Repórter, lançado agora no Brasil, que é um sobrevivente da era de ouro do jornalismo, quando os jornais tinham dinheiro e investiam alto em matérias investigativas. Mas dele pode-se dizer também, com toda razão, que é uma lenda viva da imprensa em todo o mundo.

Considerado por muitos dos seus colegas como o mais proeminente repórter de sua geração, suas reportagens são verdadeiras bombas lançadas contra mentiras, abusos e atrocidades cometidos por autoridades e potentados.

A mais notável delas foi a denúncia do massacre na aldeia de My Lai, durante a Guerra do Vietnã, quando, em 16 de março de 1968, soldados do exército norte-americano assassinaram centenas de pessoas, entre elas crianças, mulheres e velhos. Foi Hersh que deu a conhecer ao mundo um dos maiores horrores das guerras da humanidade.

O surpreendente é que a matéria, apurada e escrita quando Hersh estava trabalhando como freelancer, foi recusada inicialmente pela grande imprensa americana. Ele a ofereceu para as revistas semanais Life e Look, por exemplo, que não mostram interesse pela reportagem. Então ele a entregou para a agência Dispatch News Service que, por US$ 100, a distribuiu para editores de jornais.

A forma como Hersh começou a reportagem revela sua extraordinária intuição jornalística, seu faro aguçado para a notícia e sua inabalável persistência como profissional. Ele iniciou a investigação sobre My Lai com um recorte de jornal que publicada sem nenhum destaque, dando conta que o Exército norte-americano estava processando um militar por ter ordenado a morte de civis no Vietnã.

Foi atrás da história e terminou por produzir a reportagem que lhe rendeu o prêmio Pulitzer e cujo impacto foi tão grande que, depois dela, começou a declinar o apoio público à participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

Ralação

Mas antes de chegar ao Pulitzer ele ralou um bocado. Começou como contínuo, no turno da noite, depois passou a repórter de polícia, na City News Bureau, uma agência de notícias de Chicago, quando tinha 22 anos. Ele lembra que uma de suas funções como contínuo era preparar cópias das reportagens à medida que eram concluídas pelos jornalistas, para serem distribuídas aos clientes da agência, entre eles emissoras de rádio e TV.

“Eu acabava meu turno invariavelmente coberto da tinta azul que tinha de colocar na máquina”, conta num tom bem humorado. Além disso, “não podia deixar meu turno sem dar uma bela esfregada, com sabão especial, na mesa de Larry Mulay, o editor do turno da manhã.

Apesar deste início modesto, Hersh tem uma trajetória fulgurante no jornalismo. Trabalhou nas mais prestigiadas publicações dos Estados Unidos, entre elas o jornal New York Times e a revista New Yorker. Mas também viveu muito tempo desempregado ou como freelancer por causa da sua determinação e independência.

Como afirma José Hamilton Ribeiro, outro grande jornalista, numa longa e belíssima matéria sobre o livro publicada no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo (02-06-2019), “se a redação em que trabalha não o apóia ou põe em dúvida sua investigação, ele pega o boné e volta a ser freelancer”.

Brigão e insubordinado

Hersh tem fama de ser um cara difícil, brigão e insubordinado e é mesmo. Que  o digam alguns dos seus chefes. Ele próprio conta, com certa autocrítica, que uma vez, irritado com alterações feitas em uma série que escrevera quando trabalhava no New York Times, arremessou uma máquina de escrever contra a janela e foi embora para casa.

Mas também demonstra sinceridade e humildade em sua vida pessoal e profissional contada no livro. Exemplo disso é quando relata momentos em que se autocensurou.

Quando estava na agência City News ouviu um policial contar que tinha mandado um negro suspeito correr e atirou nele pelas costas. Hersh conseguiu um laudo do legista, mas foi orientado a não escrever nada.  A alegação era que as autoridades diriam que ele mentira e seria a palavra do repórter contra a dos policiais.

“Eu não tinha como provar que um assassinato tinha sido cometido a não ser que o próprio autor o dissesse, e ele, é claro, negaria tudo. Então deixei a reportagem de lado. (...) Fui cumprir meus seis meses de serviço militar, desesperado com a minha fraqueza e a fraqueza de uma profissão que com tanta facilidade se autocensurava e se tornava cúmplice.

Passei a detestar ambas as práticas desde então, ainda que mais de uma vez eu tenha feito vista grossa. Eu descobrira minha profissão e aprendi, com muita rapidez, que esta não era perfeita. Mas eu também não era”, reconhece.

“Se sua mãe disser que te ama, confira”

Esta é uma das lições que traz o livro. Mas ele também está repleto de histórias de aprendizagem profissional e orientações valiosas para se fazer o bom jornalismo.

Hersh afirma, por exemplo, que uma regra essencial é checar as informações. Nesse sentido, conta que um dos editores com quem trabalhou ficou famoso por ter dito a um repórter: “Se sua mãe disser que te ama, é bom dar uma conferida”. Relata ainda que muito cedo aprendeu a nem sempre confiar nas autoridades e que dar a notícia correta é mais importante do que ser o primeiro a publicar.

Sobre o momento atual do jornalismo, sua avaliação é bem crítica: “Estamos saturados de notícias falsas, informações exageradas, incompletas, asserções inverídicas feitas sem parar, nos jornais, nas televisões, nas agências de notícias online, nas redes sociais.

Segundo ele, os jornais continuarão demitindo repórteres, reduzindo a equipe e encolhendo o orçamento disponível especialmente para reportagens investigativas, cujo custo é elevado. O resultado é imprevisível e ainda têm grande capacidade de irritar leitores e atrair processos caros.

Mas apesar deste cenário, Hersh, hoje com 82 anos, continua na guerra e diz que o jornalismo é uma profissão da qual não se arrepende. “Esta minha profissão é incrível. Passei a maior parte da minha carreira escrevendo matérias que questionavam a narrativa oficial e fui muito recompensado por isso, tendo sofrido apenas um pouco. Eu não faria nada diferente”, afirma na conclusão deste livro fascinante que, segundo o escritor britânico John Le Carré, “é leitura essencial para todo jornalista e aspirante a jornalista do mundo inteiro”.

Ficha

Repórter – Memórias

Seymour M. Hersh

Editora Todavia

384 páginas

R$ 74,90

*Antônio Graça é associado e colaborador da APJor

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