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Categoria: Jornalismo
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A publicação pelo site Intercept Brasil da troca de mensagens entre Sérgio Moro, quando era o juiz responsável pelos processos no âmbito da Lava Jato, e procuradores da força-tarefa, além de revelar conduta ilegal de membros do Judiciário, está fazendo a imprensa brasileira refletir sobre um erro que vem cometendo com freqüência: o excesso de dependência e de confiança nas informações das autoridades.

Embora os manuais de jornalismo ensinem que o ceticismo deve ser uma característica do jornalista, que deve sempre checar as informações recebidas, na prática o princípio nem sempre é observado. A Lava Jato foi exemplar nesse sentido. A narrativa das autoridades foi reproduzida, principalmente pela grande imprensa, como expressão incontestável da verdade, revelando demasiada confiança nas declarações e documentos fornecidos por elas.

Dependência

“Na cobertura da Lava Jato, a imprensa foi se tornando cada vez mais dependente das informações das autoridades do Judiciário, às vezes reproduzindo acriticamente a narrativa que o Ministério Público gostaria que prevalecesse. O fenômeno não é novo, não é exclusivamente brasileiro, nem nasceu com a Lava Jato. Mas não é uma coisa positiva para o jornalismo”, afirmou André Shalders, repórter da BBC Brasil.

Ele foi uma dos participantes do painel Vaza Jato, que teve também a participação de Leandro Demori, editor executivo do Intercept Brasil, e foi mediado por Fernando Rodrigues, diretor do Poder360, realizado na sexta-feira (28/junho), no 14º Congresso da Abraji.

Demori, por sua vez, afirmou que a imprensa foi levada pela Lava Jato, que tinha e liberava muita informação. “Inicialmente não havia muita saída para a imprensa, porque era semana após de semana um tsunami de informação, uma operação nova, um preso, uma decisão polêmica. E estávamos também sob a pressão da velocidade com que a informação circula hoje”, disse.

Mas ponderou que com o passar do tempo era necessário parar e refletir sobre como a cobertura da Lava Jato estava sendo feita. “Estavam falando apenas as autoridades, era só versão oficial e a gente comendo o tempo todo na mão deles, ninguém colocava nada em dúvida”, afirmou.

Oportunidade

Segundo Leandro Demori, agora há para a imprensa a oportunidade de fazer uma reavaliação para que no futuro, quando se cobrir esse tipo de operação, não se repetir o erro. “Temos que ser céticos, desconfiar de todos, inclusive de juízes e procuradores, porque eles não falam sempre a verdade”, acrescentou.

Demori contou que o site examinou as mensagens obtidas durante quatro semanas antes de sua publicação, tendo em vista o alto impacto que a denúncia teria e teve. Segundo ele, tudo foi examinado e checado minuciosamente antes de ser divulgado e foram também tomadas medidas especiais com a segurança do material e a segurança física e digital dos jornalistas envolvidos na reportagem.

“A partir do exame do material verificamos fortes indícios de que pessoas estão presas ilegalmente, daí o teor explosivo da denúncia”,  afirmou.

Controle da narrativa

De acordo com Demori, agora a mesma Lava Jato que acusa o Intercept Brasil de estar divulgando a matéria a conta-gotas, fez exatamente isso quando beneficiava a atuação das autoridades. “Na verdade o que eles querem é ter o controle da narrativa”, afirmou.

Disse também que o Intercept Brasil é acusado pelas autoridades envolvidas nas denúncias de ser pouco transparente e trabalhar com material obtido e manipulado por hackers. Demori pondera, no entanto, que o site está sendo tão transparente que está dando acesso ao material obtido para jornalistas de outros veículos, como é o caso do jornal Folha de S. Paulo, com o qual agora está trabalhando em parceria.

Sobre as dúvidas colocadas pelos denunciados acerca da veracidade das mensagens obtidas, Demori lembra que os jornalistas do Intercept Brasil poderiam destruir suas vidas se tivessem embarcado em material falso para denúncias de tamanha gravidade.

*Antonio Graça é associado da APJor e cobriu o congresso da Abraji

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