O jornalismo, especialmente na sua modalidade investigativa, virou uma profissão de alto risco no Brasil e em vários outros países. É bem verdade que a imprensa nunca foi uma atividade exatamente confortável, porque faz parte de sua missão vigiar o governo e denunciar as mazelas dos poderosos, razão pela qual os jornalistas freqüentemente são verbalmente atacados ou processados judicialmente. Mas agora está muito mais perigoso fazer jornalismo. Profissionais da imprensa estão sendo assediados nos meios digitais, injuriados, caluniados e difamados, quando não assassinados.

Esta foi a constatação do painel Jornalismo sob Ataque, realizado na sexta-feira passada (28-6) no14º Congresso da Abraji, em São Paulo. Participaram da mesa as jornalistas Constança Rezende, repórter do UOL e ex-Estadão, Patrícia Campos Mello, repórter da Folha de S. Paulo, o jurista e professor da USP Pierpaolo Bottini,  e a mediadora Daniela Pinheiro, diretora de redação da Época.  

Na raiz desse aumento da violência contra jornalistas, conforme se observou no painel, estão duas causas principais. Por um lado, e paradoxalmente, as tecnologias digitais, que tantos benefícios trouxeram para a comunicação de modo geral, mas que também permitem que as ameaças, difamações e calúnias se amplifiquem e se propaguem vertiginosamente em sites e redes sociais. De outro lado, está a emergência de governos populistas e autoritários em vários países, inclusive o Brasil, e os ataques às democracias liberais.

Constança contou como foi alvo de uma campanha difamatória incitada pelo presidente Jair Bolsonaro, por conta da cobertura que fez para o Estadão das investigações sobre as movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro. O presidente compartilhou faknews de um portal de notícias afirmando que a repórter teria admitido a intenção de “o mandato e a família de Bolsonaro”, coisa que ela nunca disse e que tarde  mais se comprovou que era mentira e manipulação..

“Minha vida virou de cabeça para baixo. Meu celular não parava de tocar, recebi várias mensagens com ameaças, inclusive de morte. O problema é que vivemos na época da pós-verdade, quando uma matéria, mesmo sendo fakenews, viraliza e vira verdade”, afirmou a repórter.

Patrícia, por sua vez, contou como sua vida também virou um inferno depois da da publicação, em outubro do ano passado, da reportagem “Empresas Bancam Disparo de Mensagens Anti-PT nas Redes”, na Folha de S. Paulo. A reportagem envolvia uma empresa que apoiava o então candidato à presidência Jair Bolsonaro. A jornalista lembrou como, logo depois da publicação da reportagem, passou a ser atacada e ameaçada por meio de telefonemas e nas redes sociais, onde também foram veiculados vídeos com manipulação de sua imagem. Ela apareceu, por exemplo, ao lado de Fernando Hadad, candidato do PT à presidência.

Patrícia contou ainda que seu celular foi hackeado e enviadas do WhatApp dela mensagens pró-Bolsonaro. Informavam também que ela estaria em determinado evento e sugeriam que as pessoas fossem até o local para confrontá-la. No Facebook, recebeu a seguinte mensagem: “Sei que você tem um filho de sete anos. Se quer a segurança dele, saia do país”.

Após as narrativas das duas repórteres, Daniela perguntou ao jurista Bottini: “Como lidar com tudo isso?” Segundo ele, estamos diante de uma nova realidade de ataques ao jornalismo e a jornalistas e as instituições ainda não estão preparadas para lidar com ela.

“Se antes a estratégia para tentar inibir o jornalista era a censura e a repressão, as armas agora são digitais e muito mais sofisticadas. O objetivo é fazer com que o jornalista pense quatro vezes antes de fazer uma denúncia”, afirmou.  Por isso mesmo, segundo ele, as redes de proteção tem ser cada vez mais profissionais, porque as ameaças vêm de pessoas também profissionais. Para Bottini, uma das coisas mais importantes diante de uma ameaça, em qualquer escala que seja, é reagir imediatamente.

“Aconteceu alguma coisa, vai à delegacia, faz um boletim de ocorrência, vai ao Ministério Público, pede para instaurar inquérito, procure instituições como a OAB. Embora as formas atuais de ataque aos jornalistas sejam inusitadas e ainda não haja uma legislação específica para elas, é preciso lutar pra ter proteção, mesmo que seja com as armas que temos no momento”, recomendou.

*Antonio Graça é associado da APJor e acompanhou o congresso da Abraji

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