Paulo Jerônimo de Souza, o Pagê, diz que a Associação Brasileira de Imprensa se prepara para voltar à luta pela defesa da democracia e dos jornalistas, juntando forças com entidades parceiras, como as tradicionais OAB e CNBB

Expandir a atuação da ABI por todo o território nacional e unir-se a entidades emblemáticas na defesa democrática. São essas, inicialmente, algumas das frentes que serão levadas adiante pela nova diretoria da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) como forma de concretizar a proposta que fez a Chapa 2, vencedora na eleição que ocorreu no final de junho: cobrar das instituições a garantia do cumprimento da Constituição e os princípios fundamentais da democracia.

A ABI, uma centenária entidade, já levantou movimentos históricos como as Diretas Já, em 1983, mas perdeu, ao longo do tempo, seu protagonismo, nas palavras do atual presidente, Paulo Jerônimo de Souza, conhecido como Pagê, de 81 anos.

A jornalista Cibele Buoro, associada APJor, conversou por telefone com Paulo Jerônimo para entender como a entidade se posicionará diante de um contexto político que sinaliza para a escalada da censura, do autoritarismo, da violência, da retirada de direitos e, consequentemente, em um ambiente sombrio para o exercício do jornalismo.

Leia entrevista com o presidente da ABI.

Cibele – A nova presidência da ABI afirmou em comunicado que se posicionará cobrando das instituições a garantia da Constituição e dos princípios fundamentais da democracia. Como a ABI pretende, em termos práticos, fazer isso?

Pagê – A Chapa 2, vencedora, assumiu como compromisso resgatar o protagonismo da ABI, que esteve presente em muitos movimentos importantes do país, mas foi entrando em um marasmo há algum tempo, principalmente durante a administração anterior. Nós lançamos essa chapa para recuperar esse protagonismo e vamos usar todas as ferramentas disponíveis para isso. Por enquanto, estamos soltando notas, até nos organizarmos internamente. O segundo passo será procurar nossos parceiros tradicionais como a OAB, CNBB, FENAJ, Abraji, o Artigo 19 que é ligado à ONU, o Instituto Vladimir Herzog, parceiros com os quais contamos para enfrentarmos essa luta e transformar esse movimento novo em uma trincheira em defesa da democracia. Vamos procurar todas essas entidades para fazermos uma frente única em defesa da democracia.

Cibele - E o que será proposto a esses parceiros? O que será feito de concreto para que se garanta a democracia?

Pagê – Vamos acompanhar os acontecimentos e entrar com medidas judiciais junto ao Supremo. Quando ameaçarem jornalistas, a ideia é entrar em defesa dos profissionais com todos os parceiros juntos. Nós temos nosso departamento jurídico, mas se atuarmos em conjunto a OAB teremos mais força. Vamos tomar as providências necessárias junto ao Supremo, Procuradoria, Tribunais de Justiça em defesa dos jornalistas e da liberdade de imprensa.

 

Cibele - A proposta então é garantir proteção para o exercício da nossa profissão?

Pagê – Sim. Nós temos aqui uma ferramenta chamada SOS Jornalista, porque a violência que recai sobre os jornalistas não são agressões físicas, mas ameaças. Então pelo SOS Jornalista, que está no site da ABI, o profissional entra em contato conosco e nós tomamos as providências para auxiliá-lo, como notificar a Secretaria de Segurança do Estado, ou até mesmo o governador, algo que já fizemos e deu resultado.

Cibele - Agora uma pergunta sobre a conjuntura política: qual a percepção da ABI sobre a intensificação das ameaças aos jornalistas, que tem Glenn Greenwald como expoente e que alcançou repercussão mundial por conta das agressões e ameaças a ele a sua família? A percepção da ABI é que as ameaças vão se estender a outros profissionais ou se agravar?

Pagê – Nossa percepção é que a tendência é o agravamento, porque é um governo que todos estão vendo o que está fazendo. Todos os dias há uma medida nova sempre em prejuízo à liberdade de imprensa, liberdade de expressão e aos direitos humanos e estamos acompanhando tudo isso. Sobre o Glenn, já entramos em contato em ele e colocamos nosso departamento jurídico à sua disposição. Ele será sócio da ABI e na posse festiva da nova diretoria, será homenageado com uma placa. O caso do Glenn é o mais flagrante, a Miriam Leitão também foi ameaçada e nós soltamos duas notas em defesa dela e protestando contra isso. É evidente que a situação deve se agravar e nós também vamos aumentar nosso poderio com as entidades parceiras.

Cibele – Com relação à sociedade, que não compreende a dimensão do nosso trabalho e dos conflitos que envolvem nossa profissão, gostaria de saber se a ABI apresentará proposta de se aproximar da sociedade.

Pagê – Evidente que temos proposta e contamos com o apoio da sociedade. Nós já temos nosso site, que está melhorando para se tornar mais produtivo e abranger vários canais da sociedade. Além de nossas matérias, nossos diretores são convidados para palestras em vários lugares. Essa comunicação que estava faltando nós vamos dinamizar para atender e abranger a maior parte da sociedade civil. Há a ideia de trazer a sociedade para dentro da ABI e a ABI ir para fora para que conheçam nossas metas.

Cibele – Outra questão importante é sobre o enfraquecimento dos sindicatos, as demissões nas redações e a redução drástica de empregos para jornalistas.

Pagê – Eu fazia parte da diretoria anterior e rompi para poder recuperar a ABI, mas esse trabalho da antiga diretoria eu consegui junto a um grupo chamado Recuperação RJ e conseguimos treinar mais de mil jornalistas desempregados para que pudessem se adequar ao novo movimento, mudar de profissão, ter outras visões. Trouxemos pessoas de outras unidades para dar aulas de como participar de outras atividades correlatas ao jornalismo, porque a queda de vagas na nossa área é um negócio impressionante. Esse trabalho continuará e será mais dinamizado.

Cibele - Para quem não está no Rio de Janeiro, quais as propostas para atender os jornalistas que residem nos demais estados do país?

Pagê – A ABI é uma entidade nacional, mas nos últimos anos fomos ficando muito localizados. Nós temos hoje proposta de seis jornalistas de São Paulo que pretendem se filiar à entidade, alguns que eram sócios antigos e estão voltando, e sócios novos. Estamos também tentando atrair os estudantes para remoçar a ABI, porque a idade média aqui na entidade é de 59 anos, então não só trazer novos sócios, mas como também remoçar com estudantes, recém-formados. Em São Paulo já existe um movimento liderado pelo Juca Kfouri, Lalo Leal Filho, Ricardo Kotscho, estão todos conosco nesse movimento para recriar a ABI em São Paulo e acredito que dentro de um mês teremos mais de cem associados na capital paulista e deve abranger também o interior.

Cibele – Agora sobre o Judiciário, do qual partem as acusações, ameaças e prisões: a defesa do Estado Democrático de Direito, que é a bandeira da nova ABI, unida com seus parceiros, haverá fortalecimento dos departamentos jurídicos dessas entidades e mais atuação?

Pagê – Sim, porque a necessidade de um departamento jurídico atuante é muito grande diante das atitudes desse novo governo. Nosso departamento jurídico está em contato com a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia e outros movimentos do judiciário os quais estamos nos unindo para a defesa da democracia, liberdade de expressão e direitos humanos.

Cibele - O Judiciário tem sido omisso na defesa da Constituição, o senhor acredita que a ABI, junto às entidades parceiras, consigam provocar a justiça para cumprir a Constituição?

Pagê – Com certeza! Há um movimento muito grande que ainda não chegou para toda a sociedade, que é a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, que nos procuraram e estamos juntos nessa batalha.

 

Cibele Buoro é jornalista e associada da APJor

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