Se no princípio era o verbo, foi a palavra escrita que moldou em grande parte as civilizações como as conhecemos hoje. Com o controle do fogo e a invenção da roda, a escrita está entre as três mais poderosas criações do homem.

A trajetória dessa invenção e as transformações que imprimiu ao longo da história é o tema do livro O Mundo da Escrita, uma autêntica saga, em amplitude e profundidade, do professor de literatura comparada, crítico literário e filósofo Martin Puchner, nascido na cidade alemã de Nuremberg em 1969.

É uma obra indispensável, especialmente para aqueles que têm a palavra como instrumento de trabalho. Lançado em maio pela Companhia das Letras, o livro está fazendo o maior sucesso e teve em julho sua primeira reimpressão. Embora Puchner tenha ampla erudição e sólida formação universitária, ele optou por uma narrativa que está mais para um romance de aventura do que para um texto acadêmico.

Para escrevê-lo, o autor atuou até como repórter e foi aos lugares onde surgiram os grandes textos e as invenções que concorreram para a difusão da palavra escrita, tendo viajado das Américas à Europa, da Ásia ao Círculo Ártico.

Dessa viagem pelo tempo e pelo espaço, o autor nos apresenta quatro miI anos de literatura, de Gilgamesh, dos sumérios, talvez o texto literário mais antigo do mundo, ao grego Homero, da Ilíada, das Mil e Uma Noites, contadas por Sherazade, à japonesa Murasaki Shikibu, autora de O Romance de Genji que, no século 11, inaugurou o gênero na literatura universal.

Da nossa época, Puchner, se ocupa do poeta caribenho Derek Walcott, prêmio Nobel de Literatura de 1992, autor do poema Omeros, que transmudou para esta também mítica região da América Central a Ilíada e a Odisséia.

Imprensa

Mas não apenas obras ficcionais e poéticas compõem o conteúdo do livro. Pucher trata também de temas como a invenção da imprensa por Gutenberg e de Benjamin Franklin, um dos primeiros empresários dos modernos meios de comunicação, dois capítulos de especial interesse para jornalistas.

No capítulo sobre Franklin, ficamos sabendo, por exemplo, como, além de ter dado uma contribuição decisiva para a fundação dos Estados Unidos, foi também um dos precursores da imprensa naquele país, combinando talento jornalístico e tino empresarial. Quando ele nasceu (1706), havia um único jornal nas colônias norte-americanas. No momento da independência (1776) eram 37, em parte graças aos esforços do próprio Franklin.

O livro foi concebido em quatro etapas, começando pela dos pequenos grupos de escribas que dominaram sozinhos os primeiros e difíceis sistemas de escrita, segundo Puchner, e, portanto, controlavam os textos que compilavam dos contadores de histórias, como a Odisséia e a Bíblia hebraica.

Uma segunda etapa é a da contestação daquelas compilações por “professores carismáticos”, na definição do autor, como Buda, Sócrates e Jesus. Numa terceira etapa, começaram a surgir autores individuais, auxiliados por inovações que facilitaram o acesso à escrita.

Embora esses escritores imitassem os textos mais antigos, alguns mais ousados, como Cervantes, autor de Dom Quixote, logo criaram novos tipos de literatura, especialmente o romance. A última etapa é a o uso generalizado do papel e da imprensa, que deu início à era da produção e da alfabetização em massa, a exemplo dos jornais.

Ficha

O Mundo da Escrita

Martin Puchner

Editora Companhia das Letras

456 páginas

R$ 89,90

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14382

*Antonio Graça é associado da APJor

 

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