A afirmação é do jornalista Dal Marcondes, presidente da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), em comentário no debate de abertura do Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental 2019 (CBJA)

A opinião do título acima foi expressa por Dal Marcondes no CBJA realizado no mês de agosto, na cidade de São Paulo. A mesa reuniu representantes de algumas das principais entidades de representação dos jornalistas. Os participantes foram unânimes ao manifestar grande preocupação com a postura de ataque à imprensa, ao meio ambiente e à ciência, adotada pelo atual governo.

Uma maior união entre as entidades foi defendida por Dal Marcondes como forma de fortalecer a categoria, ainda mais neste período conturbado. “Jornalismo é militância mas, acima de tudo, é profissão. Com nosso trabalho, precisamos entregar conhecimento ao público, mas também levar pão à nossa mesa”, resumiu o membro do Conselho da APJor – Associação Profissão Jornalista, fazendo questão de frisar o fato de o jornalismo ser o instrumento que a sociedade tem para atravessar esse momento de informações falsas e superar a neblina informativa que encobre o olhar da sociedade. Em meio a esse turbilhão, há pelo menos uma boa notícia. “Em nenhum momento tivemos tantas possibilidades de fazer o bom jornalismo, por meio de recursos tecnológicos disponíveis para todos”, destacou Dal Marcondes.

Fred Ghedini aproveitou a ocasião para apresentar o trabalho da APJor – entidade da qual é presidente –  ao público de jornalistas e ambientalistas que lotou o auditório do Unibes Cultural. A associação defende a retomada do debate sobre a criação de um conselho profissional focado nas características da profissão, na discussão sobre o exercício do jornalismo e nas questões éticas. “Debater cotidianamente a profissão é uma necessidade, e a APJor existe para incentivar isso”, afirmou.

A chapa recém-eleita na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), que traz a esperança da volta do protagonismo da entidade na defesa da democracia e da liberdade de expressão, foi representada no debate por Ricardo Carvalho, que colocou a associação à disposição da causa ambiental e dos esforços de proteção aos profissionais que estão na ponta, divulgando práticas nocivas no país que mais ameaça jornalistas ambientais em todo o mundo. Ricardão, como é mais conhecido, fez duras críticas às recorrentes agressões ao meio ambiente por parte do presidente Jair Bolsonaro, mas lembrou que um alento é o fato de que as declarações “malucas” do chefe do executivo brasileiro acabam por atrair a atenção de mais pessoas para a causa da defesa ambiental.

“O atual governo é inimigo do jornalismo, do meio ambiente e também da área sindical”, fez questão de lembrar Paulo Zocchi, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, ao defender a sindicalização por parte dos profissionais como uma das formas de fortalecer toda a categoria. “Nossa luta como entidade sindical é para proteger ao máximo as condições de vida e de trabalho do jornalista. O Sindicato está aberto a se unir com todas as entidades do segmento pela defesa da nossa profissão e do bom jornalismo”, afirmou

Em ampla abordagem sobre a crise do jornalismo como negócio, Zocchi lembrou que a legislação brasileira limita a 30% a participação do capital estrangeiro nas empresas de comunicação. No entanto, companhias globais como Google e Facebook não se sujeitam a essa regra por serem classificadas na área de tecnologia. Na prática, concorrem de forma desleal com as empresas brasileiras de comunicação e acabam por ajudar a causar em parte da sociedade a falsa ideia de que basta acessar redes sociais para se manter bem-informado.

O resultado dessa equação tem sido redução de custos pelas empresas, enxugamento das redações e precarização da profissão, apesar dos esforços do Sindicato em mostrar para as empresas a necessidade de agir no Congresso Nacional para se proteger de plataformas que se apropriam de material jornalístico sem pagar nada por isso. “Nos anos 1990, 40% da receita das empresas era destinada à produção jornalística. Hoje, esse percentual é de apenas 7%”, completou Dal Marcondes, exemplificando o impacto das plataformas digitais no negócio jornalístico. “O dinheiro não acabou no mundo, mas falta pra nós. A proposta é que a gente, como jornalistas, negocie com o Google e o Facebook”, sugeriu Fred Ghedini, presidente da APJor.

A mesa de discussão também contou com a participação de André Biernath, que destacou o processo de criação da Rede Brasileira de Jornalistas de Ciência, da qual é presidente, e de Samyra Crespo, cientista social, ambientalista e pesquisadora, para quem há uma urgência em tornar conhecidas da sociedade as pessoas – jornalistas ou não –  que defendem a causa ambiental.  “Ninguém sabe quem nós somos, e por isso não podem confiar. É preciso falar dos nossos”, resumiu.

 

 

 Fred Ghedini, Dal Marcondes e André Biernath - Foto Sonia Mele

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