A pergunta que as pessoas deviam fazer não é por que alguém se diz jornalista. O ponto importante é se esse alguém está de fato fazendo jornalismo

Recebi uma mensagem do jornalista Beto Gonçalves comentando o programa transmitido pela BBC Radio 4 em 12 de setembro de 2019, cujo título é "Impartial Journalism in a Polarised World" (O jornalismo imparcial em um mundo polarizado[1]).  

Beto diz ter ficado “curioso com a distinção comentada no programa entre "impartiality" e "due impartiality", esta segunda seguida pela BBC e recomendada pelo Ofcom” (agência regulatória inglesa para os setores de TV, rádio e vídeo sob demanda, telecomunicações de linha fixa, celulares, serviços postais e as ondas de rádio nas quais os dispositivos sem fio operam). 

Continuo citando Beto Gonçalves: “Procurei o significado de "due impartiality" na atual versão do Broadcast Code[2], vigente desde 1º de janeiro de 2019. Como suspeitava, "due impartiality" (a devida imparcialidade) não necessariamente trata visões divergentes com espaços similares. Ela considera inúmeros fatores. Já a "impartiality" trata com equilíbrio absoluto posições divergentes.” 

A ‘devida imparcialidade’ é circunstanciada, ponderada. Leva em consideração o contexto e os valores contidos em cada posição, por exemplo[3]

E, finalmente, ainda nas palavras dele: “Lembro que houve, anos atrás, um debate quente em UK sobre veículos que concediam o mesmo espaço para as vozes que reconhecem a contribuição humana nas mudanças climáticas e as que negavam tal evidência científica. Hoje tal debate soa anacrônico. Não é hoje plausível que se dê o mesmo espaço ao pensamento antiglobalista de Ernesto Araújo e um relatório do IPCC sobre mudanças climáticas”. 

São observações absolutamente importantes e procedem, em grande parte. Mas, esta é uma reflexão que precisa seguir. 

Lealdade com o público 

Aproveito para trazer ao leitor o trabalho de Bill Kovach e Tom Rosenstiel  no seu imprescindível “Os elementos do jornalismo – O que os jornalistas devem saber e o público exigir”. 

Durante três anos, entre 1997 e 1999, eles acompanharam e analisaram entrevistas com 300 jornalistas nos EUA, 21 discussões em grupo com 3 mil pessoas para, ao final, consolidarem o trabalho na seleção dos 9 elementos fundamentais do jornalismo. 

Entre eles não consta nem a imparcialidade, nem a neutralidade. 

No livro são reproduzidos vários trechos colhidos nas entrevistas. Como este, da jornalista conservadora Maggie Gallanghner, para quem “podemos ser partidários [no sentido da defesa de uma causa, não de um partido especificamente], jornalistas de opinião e ainda assim, acreditar que temos uma nobre obrigação de sermos justos com aqueles com quem não concordamos”, o que “está ligado ao sentido de obrigação que temos com nosso público”.[4] 

Ou, ainda: “Podemos acreditar que certas coisas, ideias, propostas seriam boas para o país e podemos dizer isso de forma aberta. Mas ser leal a um partido político, uma pessoa ou uma facção significa que não consideramos como nosso objetivo maior o compromisso de falar a verdade às pessoas que formam nosso público. Há aqui um conflito fundamental de lealdade”. 

Ou seja, para a jornalista “o passo crítico na busca da verdade e no processo de informar a população não é a neutralidade, mas sim a independência”. 

Respeito aos fatos 

Outro dos entrevistados no trabalho de pesquisa dos autores citados foi Anthony Lewis, à época colunista liberal do New York Times, para quem “Os jornalistas que acabam escrevendo colunas opinativas têm um ponto de vista... Mas eles também, acima de tudo, respeitam os fatos”. 

Trata-se, portanto, de manter a independência em relação às fontes, a independência no pensar e a independência em relação a facções. 

O respeito aos fatos está na raiz da própria definição de jornalismo que pode ser resumido, de forma muito concisa, como a prática sistemática de conferir a informação recebida (a verificação ou aferição) em relação aos fatos, números, antes de passá-la adiante. 

É em nome do público, do respeito ao preceito de que o público tem o direito inalienável do acesso à informação, que se deve respeitar os fatos. 

Enfim, vale uma lida detida do trabalho de Kovac e Rosenstiel. Leitura obrigatório para jornalistas, professores, estudantes de jornalismo e pesquisadores do tema. Leitura importante, também, para o público em geral. 

Vale ainda, ao fim e ao cabo, considerar que imparcialidade e neutralidade continuam fazendo parte do ideário de muitos jornalistas e veículos jornalísticos. 

Apesar dos avanços que observamos, seja na mudança realizada pela BBC de Londres, seja no trabalho de Kovac e Rosenstiel, há áreas de sombra a serem esclarecidas. 

Novos debates, pesquisas e estudos continuam sendo necessários. 

[1] Eis o link para o programa de rádio: https://www.bbc.co.uk/programmes/m0008b84

[2] O código da Ofcom está no seguinte link:

https://www.ofcom.org.uk/tv-radio-and-on-demand/broadcast-codes/broadcast-code  

[3] Na explicação do Ofcom, “Due” is an important qualification to the concept of impartiality. Impartiality itself means not favouring one side over another. “Due” means adequate or appropriate to the subject and nature of the programme. So “due impartiality” does not mean an equal division of time has to be given to every view, or that every argument and every facet of every argument has to be represented. The approach to due impartiality may vary according to the nature of the subject, the type of programme and channel, the likely expectation of the audience as to content, and the extent to which the content and approach is signalled to the audience. Context, as defined in Section Two: Harm and Offence of the Code, is important.

[4] Todas as citações reproduzidas foram retiradas das páginas 148 e seguintes da 2ª edição do livro, publicado pela Geração Editorial em 2004, em São Paulo.

 

* Fred Ghedini é presidente da Associação Profissão Jornalista.

0
0
0
s2smodern