“Há momentos na vida de uma nação em que valores e princípios precisam ser reafirmados cotidianamente (...). Um desses valores, indubitavelmente, é a liberdade de imprensa”.

Por conta dos acontecimentos dos últimos meses, nos quais a imprensa tem sido alvo de críticas contundentes por parte do governo, o IEA - Instituto de Estudos Avançados – e a e a Superintendência de Comunicação Social (SCS), da USP – Universidade de São Paulo, organizaram o seminário Liberdade de Imprensa e Democracia, com o objetivo debater esta temática importante e que afeta diretamente a nossa democracia. Publicamos aqui a primeira parte do evento.

O superintendente de comunicação da USP, Luiz Roberto Serrano, mediador dos debates, retratou a importância sobre o assunto em suas palavras de abertura. “Há momentos na vida de uma nação em que valores e princípios precisam ser reafirmados cotidianamente para resguardar o funcionamento das instituições democráticas. Um desses valores, indubitavelmente, é a liberdade de imprensa, alicerce sobre o livre debate do presente e do futuro das sociedades democráticas”, afirmou.

Quem participou

Participaram do seminário, realizado em 19 de setembro no campus da USP em São Paulo, como jornalistas convidados Carlos Eduardo Lins e Silva, professor e colunista da Rádio USP; Marina Amaral, cofundadora da Agência Pública;  Pedro Varoni, diretor editorial do Projor - Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e editor responsável pelo Observatório da Imprensa; João Gabriel de Lima, editor executivo de O Estado de S. Paulo; Vinicius Mota, secretário de redação do jornal Folha de S. Paulo; e Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP. Além da contribuição especial do médico e professor do IEA, Paulo Saldiva.

“Sem a imprensa livre e sem uma análise crítica, vamos nos perder no mar da ignorância e da desinformação”.

Para o professor Saldiva o tema é central já que a imprensa é fundamental para a sociedade. “A comunicação foi necessária para a evolução humana. Como se sabe das coisas? A imprensa pega uma informação, sintetiza e oferece uma pré-análise, permitindo que as pessoas tenham suas opiniões e críticas. A tecnologia permite o acesso à informação e à comunicação? Sim, ficou possível. Mas a imprensa não, que é a análise criteriosa e objetiva dos fatos, com a apresentação de opiniões que permitem a população se apoderar de conceitos complexos”, afirmou.

Saldiva disse que “a imprensa vai mudar muito, porque a responsabilidade dela aumenta com esse monte de informação disponível que precisa sintetizar de uma forma sofisticada e adequada para a população”.

E completou, de forma enfática: “A imprensa terá um papel libertador. Sem a imprensa livre e sem uma análise crítica, vamos nos perder no mar da ignorância e da desinformação”.

Já Carlos Eduardo citou o historiador e cientista político norte-americano Benedict Anderson, que escreveu no livro Comunidades Imaginadas, “a imprensa é a chave da construção das nações”, explicando que o autor faz um apanhado sobre tudo o que Paulo Saldiva disse.

“Eu acho que a imprensa teve esse papel e hoje, séculos depois, nós não sabemos o que será da imprensa e da democracia, do jeito que a imprensa está atualmente. Não é pequeno o tamanho da crise”, avalia Lins e Silva.

“O problema da imprensa é tão grande hoje que você não consegue distinguir quem é jornalista ou não”

Além disso, o professor falou sobre os jornalistas se tornarem sofredores. “Os problemas são gerados, em grande parte, dentro da nossa própria profissão, dentro da nossa própria corporação e como resultado dos nosso próprios erros”.

Não à vitimização da imprensa

Lins e Silva identifica problemas na atuação da própria imprensa, ao lembrar que “muito do que foi feito no passado ajudou a criar a crise de confiança da sociedade em relação ao jornalismo”.

Para o jornalista e professor, “muitas vezes os jornalistas são arrogantes, muitas vezes estão distanciados do sentimento do público que consome suas informações, muitas vezes estão falando de coisas que não interessa para a sociedade e muitas vezes estão falando de forma que a sociedade não consegue aprender e apreciar”.

E adverte: “Uma das questões que eu enxergo hoje na situação que a imprensa brasileira vive no governo do Jair Bolsonaro é a possibilidade de voltemos a nos considerar vítimas. A vitimização da imprensa não é boa para o seu desenvolvimento e para o seu fortalecimento”.

Para Lins e Silva, mais do que combater governos, os jornalistas e a imprensa precisam “reconquistar e cativar o público”.

Quem perde

Já Marina ainda complementou a questão da perseguição aos jornalistas por parte do governo. “A perseguição do governo a nós jornalistas é um fato, nós mesmos na Pública já fomos alvo. Mas não podemos nos sentir acuados e nem desesperançados. Devemos lutar para nos diferenciar da desinformação. No fundo, quando o Bolsonaro persegue o jornalista, ele persegue a verdade e não o profissional e somente a sociedade perde com isso”.

Segundo Pedro Varone, o auge das mudanças na imprensa vem há sete anos. “O epicentro das alterações que estamos vivendo, um tipo de jornalismo que morre e outro que nasce, foram as manifestações de 2013, quando a mídia tradicional perdeu a pauta e o debate público mudou de local”.

O centro da cobertura “não estava mais nos filtros da mídia, mas sim nas redes sociais, quando começaram a surgir diversas iniciativas na imprensa brasileira, como a Agência Pública, o Nexo, The Intercept, que trouxeram pluralidade em uma mídia tradicional que é comprometida com uma agenda mais limitada. E, ainda, temos que nos perguntar até que ponto o jornalismo brasileiro foi responsável pela situação que vivemos hoje”, finaliza Pedro Varone.

Rafael Gmeiner é coordenador de comunicação da APJor.

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