O IEA - Instituto de Estudos Avançados – e a e a Superintendência de Comunicação Social (SCS), da USP – Universidade de São Paulo, organizaram o seminário Liberdade de Imprensa e Democracia, para debater o processo que permeia a liberdade de imprensa e a democracia. Anteriormente fizemos uma matéria com a primeira parte  que publicamos aqui. Hoje vamos falar sobre a segunda parte do evento.

A mesa, com o tema Desafios do Presente e do Futuro, contou com o editor executivo de O Estado de S. Paulo, João Gabriel de Lima; com o secretário de redação do jornal Folha de S. Paulo, Vinicius Mota; e Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.

“As fontes de informação se multiplicaram e
muitas vezes são usadas para atacar a imprensa. Faz parte
do processo democrático. Porém, muitos governantes usam as redes sociais para minar a credibilidade do jornalismo”

João Gabriel iniciou o debate mostrando que a imprensa é algo externo ao governo e que o principal desafio do jornalismo no presente, em seu ponto de vista, é a relação com o poder. “O jornalismo nunca está do lado do poder, ele sempre está fora”.

E continuou: “Quando a relação do jornalismo com o poder é uma relação amigável, é sinal de que o jornalismo está fazendo algo errado, ou temos algum problema na democracia do País, porque o jornalismo sempre está se colocando em uma posição externa do poder”.

Ataques à imprensa

Para o editor do O Estado de S. Paulo a questão é a diversidade de canais por meio dos quais as pessoas consomem as notícias. “As fontes de informação se multiplicaram, os governantes têm acesso direto ao seu público via mídias sociais, via blogs, e de maneira geral isso é bom, por que é democrático. Porém, muitos políticos utilizam isso para minar a credibilidade do jornalismo e para atacar a imprensa”, diz.

De acordo com João, este processo é parte de uma estratégia articulada para colocar o jornalismo como oposição. “A ideia é dizer, ou insinuar, que quando a imprensa ataca membros do governo, ela teria uma agenda oculta político-partidária. Quando se publica algo que desagrada o governo, isso não seria informação, e sim oposição. E mina-se a credibilidade dessa forma”.

Ele indicou, ainda, a transparência como solução para evitar este problema. “Deixar claro para o leitor qual é a missão do jornalismo, sem partidarismos, sem sectarismo, e como nossas reportagens são feitas. O jornalismo que seja bolsonarista é mau jornalismo, o jornalismo anti-bolsonarista é mau jornalismo, o jornalismo petista é mau jornalismo, o jornalismo anti-petista é mau jornalismo, o jornalismo tucano é mau jornalismo, o jornalismo anti-tucano é mau jornalismo”, afirma.

Segundo ele “o que cabe ao jornalismo é perseguir a verdade e revelar os fatos e, sim, defender causas independentes e apartidárias. Temos que ser mais honestos com nossos leitores. Assim, podemos manter nossa credibilidade”.

Manter a independência

Já o jornalista e professor Eugênio Bucci completou enaltecendo que a transparência, já mencionada por João Gabriel, é o caminho para superar os desafios que a profissão enfrenta e enfrentará. “Devemos vencer o preconceito justificado sobre financiamento público para o jornalismo. Por outro lado, devemos manter nossa independência e seguir no caminho da transparência e do esclarecimento”.

Bucci defende ser “preciso levar mais em conta a função do esclarecimento, que tem a ver com educação, com a formação, tanto de novos leitores, como de novos cidadãos. Mas tudo isso ainda está por ser feito”.

Por fim, Bucci elucida que com as novas tecnologias o jornalista deixou de pensar e de produzir materiais com qualidade e racionalismo. “Nossa grande crise é uma crise de pensamento, como se a imprensa tivesse desaprendido a pensar, se vendo como linha de montagem de publicação de notícias, não como manancial de pensadores”.

Senso comum

Uma espécie de “profeta do senso comum, sem reflexão” que “pode acabar desaguando no autoritarismo”. É assim que Bucci vê o jornalismo brasileiro no momento.

“Se o discurso do governo não pertence ao campo democrático, não há ponto de equilíbrio, não há equidistância entre o jornalismo, a democracia e o que está fora do campo democrático. Só o pensamento livre pode nos levar a defender as causas democráticas que se opõem ao autoritarismo”, finaliza o professor.

*Rafael Gmeiner  é coordenador de comunicação da APJor

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