O universo da desinformação está se expandindo e se tornando cada vez mais complexo e sofisticado. As fakenews (notícias falsas), por exemplo, agora têm uma segunda geração, as deepfakes (falsificações profundas), cujo potencial de estrago é ainda maior do que o da primeira versão, especialmente no âmbito do jornalismo.

São manipulações que usam avançados recursos tecnológicos, como a inteligência artificial (IA) para criar vídeos e áudios, combinados ou não, em que apresentam as pessoas fazendo ou dizendo algo que elas nunca fizeram ou disseram. As deepfakes podem ainda exibir imagens de pessoas que jamais existiram, a partir da fusão de rostos reais.

Pode parecer ficção científica. Mas já é uma realidade, e assustadora. Numa reportagem sobre o assunto, o jornal Valor (EU & Fim de semana 24-5-2019) cita um exemplo que dá uma boa medida do poder desta nova forma de manipulação. Trata-se de um vídeo em que Barack Obama aparece dizendo impropérios, como “Trump é um imbecil”. Tudo mentira, mas convincente.

Esta nova tecnologia da mentira foi um dos assuntos abordados no seminário “Desinformação, Antídotos e Tendências”, promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), em São Paulo, em 17 de outubro. Na palestra “Deepfakes: a última geração da desinformação”, Sam Gregory, tecnólogo, advogado especializado em novas formas de desinformação e diretor do programa Witness (ver baixo), afirmou que essa sofisticada forma de manipulação e falsificação da informação afeta particularmente o trabalho dos jornalistas.

Jorrando mentiras

 “Os ataques à mídia já estão acontecendo. Há mangueiras de mentiras, jorrando textos, áudios e vídeos com dados falsos nas redações, que ficam sobrecarregadas com a necessidade crescente de checagem. Além disso, a verificação vai sendo cada vez mais dificultada. A desinformação também impacta a confiança do público, que se torna cético em relação à imprensa”, afirmou.

As previsões de Gregory são preocupantes.  “A situação tende a piorar porque as tecnologias para produzir deepfakes serão cada vez mais fáceis de serem usadas e estarão mais acessíveis. Até num celular elas poderão ser geradas. Além disso, elas parecerão cada vez mais reais”, afirmou.

A situação é grave, segundo Gregory, e exige ações interdisciplinares e de várias instituições, especialmente da imprensa profissional, para combater a desinformação. “Mas não devemos entrar em pânico. Talvez só um pouco”, afirmou com um toque de humor.

Fim da verdade?

"As pessoas não devem ver deepfakes como o fim da verdade, mas precisam se preparar para enfrentar a nova onda de desinformação, e jornalistas, verificadores de fatos e ativistas são pontos centrais nessa tarefa", afirmou.

De acordo com o palestrante, já existem ferramentas para detectar as deepfakes. É possível, por exemplo, autenticar imagens reais. A questão é colocar estas ferramentas em tempo real para todos os jornalistas e não apenas para os que estão em cargo de chefia.

Gregory afirmou que, nos últimos 18 meses, especialistas têm estudado em diferentes países os melhores caminhos para enfrentar as deepfakes, o que é possível fazer, quais são as ameaças e como proceder.

No Brasil, num workshop sobre a questão, foram elencadas como prioridades a alfabetização midiática, inclusive do público, a capacitação dos jornalistas e o monitoramento do ambiente de desinformação no âmbito das deepfakes.

Gregory destacou ainda a necessidade de plataformas, como Google, Facebook e WhatsApp, assumirem a sua parte de responsabilidade na guerra contra a desinformação em geral e especialmente contra as deepfakes. Elas devem criar sistemas e ferramentas para detectar e não publicar, ou retirar de circulação, os conteúdos falsos.

O presidente da ANJ, Marcelo Rech, por sua vez, afirmou, no discurso de abertura do seminário, que “a melhor maneira de controlar a infecção da desinformação é desenvolver anticorpos nos indivíduos e na sociedade”.

Segundo Rech, no longo prazo, o ideal é a educação para a mídia, para que as pessoas possam distinguir o falso do verdadeiro e entender as implicações de compartilhar conteúdos sem certificado de origem. “Mas no curto prazo a vacina é valorizar e reconhecer o papel da imprensa profissional”, disse.

Epidemia

“Agora se avizinha outra ameaça, que é a desinformação 2.0 (de segunda geração). Ela vai exigir de todos nós novos remédios e tratamentos inovadores para enfrentarmos o que pode ser uma epidemia devastadora de falsidades”, acrescentou.

Rech advertiu, no entanto, para o perigo de se combater a desinformação com mais controle da informação, especialmente por parte dos governos. “O  combate à desinformação deve ser feito sem garrotear a informação livre”, afirmou. 

Entidades e iniciativas envolvidas no combate à desinformação

WITNESS – Entidade que promove o uso de vídeo e tecnologia para   defender os diretos humanos e promover o jornalismo cívico.

https://www.witness.org/

 First Draft – Organização dedicada a apoiar jornalistas, acadêmicos e tecnólogos que trabalham para enfrentar os desafios relacionados à confiança e à verdade na era digital.

https://firstdraftnews.org/

 Projeto Comprova –  Coalizão de vários veículos brasileiros de comunicação que tem por objetivo  identificar e enfraquecer as sofisticadas técnicas de manipulação e disseminação de conteúdo enganoso em sites, aplicativos de mensagens e redes sociais.

https://projetocomprova.com.br/

Além do Comprova, esta matéria do Tech Tudo traz mais sete alternativas de agências jornalísticas de checagem de informações. .

 

*Antonio Graça é associado e colaborador da APJor

Foto: Witness 

 

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