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Porque devemos escrever sobre nós, os jornalistas, ou como podemos atuar para encontrar um caminho a seguir no sentido do fortalecimento do jornalismo de interesse público e dos próprios jornalistas

 

“Comecei a entender que a caneta e as palavras podem ser muito mais poderosas do que metralhadoras, tanques ou helicópteros”. O trecho é do livro “Eu sou Malala”. Nele, a jovem paquistanesa Malala Yousafzai conta sua saga na defesa do direito das mulheres do vale Swat (norte do Paquistão) de frequentarem a escola, numa luta de vida e morte contra o atraso representado pelas leis que o Talibã impôs à região, com a complacência do governo.

A frase vem a calhar neste momento em que um grupo de jornalistas organiza o movimento pelo seu conselho profissional. Sempre haverá alguém para lembrar que nosso contexto é bem diferente daquele enfrentado pela jovem paquistanesa. Lá, chocam-se interessem tão agudos e poderosos como os dos EUA, das nações da região – membros do seleto clube de detentores da tecnologia da bomba atômica –, culturas e aparatos milenares em busca do controle das populações locais.

O conflito em que vivem os jornalistas

Mas, guardadas as devidas proporções, o conflito em que vivemos enquanto jornalistas profissionais contem um razoável grau de tensão. Temos um jornalismo baseado principalmente em algumas grandes empresas que não abrem mão de exercer, de forma quase exclusiva, o direito de determinar o que é o espaço público e midiático do país.

Enquanto esse seleto grupo de empresas enfrenta ele próprio seu desafio de continuar a manter de pé seus negócios baseados no jornalismo, muitos jornalistas se veem desempregados, enfrentando situações de penúria ou deixando a profissão em busca de outros afazeres profissionais para poderem se sustentar e a suas famílias.

Em meio à crise, aparecem grupos de colegas que empreendem, criando suas soluções para o exercício de um jornalismo de caráter público. No entanto, são soluções isoladas em busca de possibilidades de sobrevivência ainda não concretizadas.

Paralelamente, intensifica-se o emprego de jornalistas no chamado mercado corporativo, nome que não se ajusta totalmente à realidade. Há neste segmento também o jornalismo exercido no setor público, nas ONGs, nos sindicatos... enfim, em todo o tipo de ator social. Mas, em geral, são ‘jornalismos’ em que a última palavra pertence a alguém que comanda tais instituições/movimentos, e não à consciência do próprio jornalista ou às equipes de jornalistas.

Uma questão central: como manter o jornalismo de interesse público

Mas, o grande problema está justamente no meio de campo jornalístico. Ou, se quiserem, no núcleo que é o jornalismo de interesse público, aquele que tem na divulgação das informações de interesse público a sua finalidade principal.

Um dos aspectos que se apresenta é que, aparentemente, a publicidade não se propõe mais a ser a grande financiadora desse jornalismo de interesse público. Consequentemente diminui o fluxo de recursos para as empresas jornalísticas. Se o respeito aos profissionais, o emprego e a remuneração que os profissionais vêm recebendo das empresas jornalísticas cai sistematicamente de 30 anos para cá, imagine-se como estará agora.

Fala-se no jornalista tornar-se um empreendedor. Certo. Mas se o anunciante busca outras mídias para seu público, não é uma suposição vã imaginarmos que diminui sensivelmente a liberdade que a equipe de jornalistas de qualquer publicação tem para escolher e destacar os assuntos a serem contextualizados, analisados e publicados.

Da mesma forma, se o jornalista busca financiadores mais ligados a públicos específicos, certamente fica mais dependente de quem pretende atingir aquele público assim como dos eventuais pontos de vista de cada um desses públicos.

Como agir quando a fonte de financiamento está tão próxima da redação?

Qualquer um de nós que trabalhe ou que tenha trabalhado em jornais de bairro, jornais pequenos do interior ou mídia segmentada sabe que, em tais espaços, a proximidade com o anunciante é muito maior do que nos grandes veículos jornalísticos (não vamos tratar neste artigo do fato de que, para alguns assuntos ‘de interesse da casa’, tal distanciamento nem existe. Deixemos isso para outra ocasião).

Se tal proximidade é uma realidade, por que não se discute, de forma mais detida, como agir nessas circunstâncias? Se a realidade da imensa maioria do trabalho jornalístico está longe daquela situação em que se alega haver um muro absoluto entre o editorial e o comercial, por que continuarmos nos aferrando a tal realidade inexistente?

Ou seja, temos aqui uma pergunta exigindo resposta: como exercer o jornalismo, com autonomia e com as características que o jornalismo de interesse público exige, mesmo estando mais próximos das fontes de financiamento?

Jornalismo ‘de marca’: uma outra questão

Não estamos tratando aqui do jornalismo de assessoria de imprensa/comunicação, em que se divulga no release o produto, serviço ou ideia da empresa, instituição ou personalidade. Nem do ‘jornalismo de marca’, feito como resultado do investimento direto de uma determinada empresa ou instituição para fixar sua marca, um trabalho que se encaixa dentro de um planejamento de relações públicas.

Estamos tratando de um jornalismo que tem seu pressuposto na autonomia do editorial em relação ao comercial. Uma iniciativa independente de um ou mais jornalistas, com um público determinado, eventualmente um ou poucos anunciantes, mas que busca exercer o jornalismo com autonomia. Deveria tal veículo trazer explicitado, junto com o expediente, uma frase esclarecendo que não tratará de tais e quais assuntos porque afetaria decisivamente sua fonte de receita? O eventual anunciante e o ou os jornalistas responsáveis concordariam com tal advertência ao respeitável público?

Arma ou lanterna?

Da reflexão feita até aqui, concluo que talvez o melhor paralelismo do trabalho jornalístico, neste momento, seja com uma fonte de luz e não uma arma. Sim, porque precisamos, com urgência, de algo que nos ajude a iluminar (a compreender) o contexto e o que acontece com o próprio jornalismo.

Talvez, mais adiante, precisemos da disposição de um grupo “fortemente armado” de suas canetas e demais dispositivos de comunicação – e unido – para, uma vez tendo o mínimo de clareza sobre o caminho a ser seguido, conseguirmos vencer os obstáculos e as oposições que certamente surgirão à frente.

Aí então a comparação da utilização das palavras com armas poderá fazer sentido. Mas, no momento, faz mais sentido utilizarmos o ato de escrever e de divulgar nossas ideias e questionamentos como fonte de luz para enxergarmos o caminho.

Desafio

Então, fica aqui o desafio aos e às jornalistas: vamos buscar, de todas as formas, gerar a luz que precisamos para conseguirmos enxergar o que está à nossa volta e, assim, podermos traçar o melhor caminho para chegarmos às respostas de que necessitamos.
Enviem suas reflexões para que possamos reunir as melhores análises, as melhores ideias, para fazermos o nosso planejamento e seguirmos adiante com o nosso movimento, até conquistarmos um conselho profissional como instrumento para fortalecermos o jornalismo de interesse público e a nossa própria categoria profissional.

O Movimento Jornalistas Pró-Conselho é um espaço para isso. Que todos os interessados enviem suas contribuições, suas luzes. Estamos aqui, de olhos bem abertos para recebê-las.

Fred Ghedini é jornalista, professor de jornalismo na Fiam, pesquisador e integra o Colegiado Diretivo do Jornalistas Pró-Conselho.

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