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Categoria: Jornalismo
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A concentração de propriedade no campo da mídia é um problema global e existe mesmo em países onde há legislação contra a propriedade cruzada, como os Estados Unidos, ou regiões como a Europa, onde se consolidou um sistema público de televisão, a exemplo da BBC na Inglaterra. Mas na América Latina, e particularmente no Brasil, o nível de concentração de propriedade é alarmante.

Esta é a constatação da pesquisas sobre o tema realizadas no Brasil, Argentina, México, Colômbia e Peru e agora reunidas no portal Latino-America do Media Ownership Monitor (MOM), lançado início de dezembro, numa iniciativa das organizações Repórter sem Fronteiras (RSF) e Intervozes.

O objetivo é lançar luz sobre os riscos que a concentração da propriedade representa para o pluralismo e a diversidade da mídia. O MOM também avalia qualitativamente as condições do mercado e o ambiente regulatório. Para isso, utiliza uma metodologia de mapeamento que gera uma base de dados acessível ao público e atualizada constantemente sobre os principais proprietários dos meios de comunicação de um país, incluindo mídia impressa, rádio, televisão e online.

Corporações e famílias

Na América Latina, os meios de comunicação estão sob controle do setor corporativo e de famílias empresariais que se vinculam às elites econômicas e políticas e usam sua capacidade de influenciar a opinião pública como capital, segundo as pesquisas realizadas nos cinco países. Elas foram concluídas em períodos diferentes, mas são todas recentes.

"Os grupos de mídia influenciam, e muito, nas dinâmicas de poder. No momento em que a América Latina vivencia conflitos e mobilizações intensas, é importante voltar a analisar o papel de grupos que historicamente exercem o poder fundamental de agendar as discussões, transmitir informações para a população e fiscalizar o Poder Público. Tudo isso com pouco ou nenhum espaço para a pluralidade e diversidade de ideias e opiniões", destaca Helena Martins, professora da Universidade Federal do Ceará e integrante do Conselho Diretor do Intervozes.

No caso do Brasil, a pesquisa, concluída em 2017, aponta que os 50 veículos de maior audiência pertencem a 26 grupos de comunicação. Apesar de toda a diversidade regional existente e das dimensões continentais de seu território, os quatro principais grupos de mídia concentram uma audiência nacional exorbitante em cada segmento analisado, ultrapassando 70% no caso da televisão aberta, meio de comunicação mais consumido no país.

Os cinco maiores grupos

Para se ter uma idéia do nível de concentração e propriedade na mídia no Brasil, basta ver seguintes números: dos 50 meios de comunicação analisados, 9 pertencem ao Grupo Globo, 5 ao Grupo Bandeirantes, 5 à família Macedo (considerando o Grupo Record e a Igreja Universal do Reino de Deus -IURD, ambos do mesmo proprietário), 4 ao grupo de escala regional RBS e 3 ao Grupo Folha.

Na Argentina, os 52 principais grupos de comunicação estão nas mãos de 22 empresas, que determinam o que a grande maioria dos argentinos assiste, lê e ouve. Os 4 maiores conglomerados concentram quase metade do público nacional em todas as mídias e 25% de todo esse público está nas mãos do Grupo Clarín, que detém a propriedade 12 dos 52 veículos pesquisados.

Na Colômbia, os três grupos de mídia com maior concentração de audiência são a Organização Ardila Lull, o Grupo Santo Domingo e a Organização Luiz Carlos Sarmiento Ângulo. Juntos, esses grupos concentram 57% do conteúdo total que a sociedade pode acessar no rádio, TV, internet e mídia impressa.

El Comércio é o maior no Peru

De acordo com a pesquisa, o Peru também apresenta um alto nível de concentração da propriedade dos meios de comunicação. Das 40 mídias analisadas, 16 pertencem ao Gruo El Comercio que, além de concentrar 70% da publicidade anual, concentra 80% da circulação estimada de jornais impressos. Sua presença na internet também é dominante: 68% do total da audiência estimada para notícia online no país está nas mãos do grupo.

No México, uma análise de 42 meios com grande audiência (8 de televisão, 11 de rádio, 3 online e 10 de imprensa escrita mostra que eles estão concentrados em 11 grupos empresariais, que controlam a difusão de notícias que chegam a maior parte o público mexicano. Segundo a pesquisa, a indústria da mídia naquele país está controlada por alguns dos empresários mais ricos do mundo.

Mídia rica e jornalistas na insegurança

Enquanto o setor de mídia cresce três vezes mais rápido que o conjunto da economia mexicana, a alarmante concentração da propriedade da mídia está de mãos dadas com a notória insegurança em que vivem os jornalistas no México devido aos salários precários, o que aumenta a vulnerabilidade e as pressões de todo tipo.

“Pressões econômicas e concentração de propriedade podem limitar a capacidade do jornalismo de responsabilizar os que estão no poder. Com nossa pesquisa, queremos fornecer uma ferramenta para que todos os cidadãos possam entender melhor os interesses, o poder e os desafios que definem o ambiente em que a mídia latino-americana opera”, afirma Emmanuel Colombié, diretor do escritório para a América Latina da RSF.

Acesse a íntegra dos relatórios da pesquisa ETA no link https://latin-america.mom-rsf.org/en/.

*Antonio Graça é associado e colaborador da APJor

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