A história da imprensa brasileira tem vários exemplos de publicações que inovaram o jornalismo, a exemplo do jornal Última Hora e da revista Realidade. Mas nenhuma experiência foi tão radicalmente ousada e inovadora, no conteúdo e na forma, quanto à do Jornal da Tarde, que circulou de 1966 a 2012, e constituiu uma autêntica reinvenção da imprensa brasileira.

A história desta publicação, que deixou paginas memoráveis, é contada no livro Jornal da Tarde: Uma Ousadia que Reinventou a Imprensa Brasileira, de Ferdinando Casagrande, que narra todo o percurso da publicação, desde o nascimento sob o comando do jornalista Mino Carta.

Lá estão todas as fases por que o JT passou, como a primeira redação foi constituída, o perfil dos profissionais, as várias mudanças no comando ao longo de sua movimentada trajetória, os bastidores, crises, disputas e intrigas que marcaram seus últimos anos.

Concebido para atingir um público mais jovem que o do seu tradicional irmão mais velho, O Estado de S. Paulo, o JT, como ficou conhecido, foi fundo na ousadia e na criatividade, embora a linha editorial, principalmente nas questões da política, internacional e da economia, fosse muito próxima da do conservador Estadão. Nos meios jornalísticos era conhecido como “o Estadão de jeans”.

Contudo, na forma – e nos textos relativos a costumes, artes e meio ambiente – era uma revolução. Os textos eram leves, as reportagens buscavam sempre ângulos novos para contar os fatos, na tentativa de contemplar a história que estava por de trás da notícia, em narrativas que utilizavam recursos do jornalismo literário.

Reportagens premiadas

O jornal também investia alto em grandes reportagens, para as quais não tinha limitação de recursos, feitas por um time de profissionais que estavam entre os melhores da imprensa na época. Várias dessas reportagens receberam prêmios, entre eles o Esso de Jornalismo.   

A diagramação era surpreendente para os padrões do jornalismo brasileiro da época, mesclando recursos do que havia de melhor no visual das revistas e na publicidade. As fotos e as ilustrações eram valorizadas como elementos da própria narrativa jornalística e ocupavam grande espaço nas páginas. Foi uma autêntica revolução gráfica.

A ousadia também estava na primeira página. Dois momentos entraram para a história do jornalismo brasileiro. O primeiro foi na desclassificação do Brasil na Copa de 1982. O jornal saiu com a foto de um menino com expressão de choro ocupando todo o espaço da capa. Não havia texto.

O segundo momento foi a derrota da campanha Diretas Já em 1984. O jornal saiu com uma capa toda em negro.

Dependência fatal

Apesar da reconhecida criatividade, do prestígio junto ao público e aos apreciadores do jornalismo e do sucesso editorial, o jornal comercialmente não foi bem sucedido. Não desenvolveu uma estratégia mercadológica própria, ficando nesse sentido na dependência da área comercial do Estadão, que o via e tratava como concorrente. Por isso e outros motivos administrativos, o JT só deu seu primeiro lucro em 1989, 23 anos depois de sua criação.

Do nascimento, em janeiro de 1966, ao fechamento, em outubro e 2012, Casagrande conta tudo, numa linguagem ágil, como convém à narrativa do cotidiano e da história de um jornal diário. Narrativa que traz, ainda, a emoção de quem é parte da história contada.

O JT foi um de jornal brilhante. Influenciou vários outros jornais e publicações de outras naturezas. Já não circula mais, como inúmeros impressos – jornais e revistas. No entanto, os arquivos e principalmente a memória de seu público guardarão as páginas de um jornal que nasceu para encantar um público fiel de leitores e muitos apreciadores do jornalismo impresso.

 

* O jornalista Antônio Graça é associado e colaborador assíduo do site da APJor.

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