Com nomes como "Fluxo", "Amazônia Real" e "Aos Fatos", começam a surgir no Brasil microempresas jornalísticas criadas e dirigidas por repórteres.

 

Ainda não há, porém, um modelo de negócios sustentável, e os empreendimentos têm recorrido a instituições filantrópicas como Fundação Ford e Open Society para se estabelecerem.

O apoio que conseguem vem com prazo definido e sem garantia de renovação.

O movimento ganha reforço agora com a decisão de uma primeira organização brasileira —o Instituto Arapyaú, do empresário Guilherme Leal, da Natura— de apoiar projetos de mídia.

"Democracias robustas precisam de informação de qualidade", justifica Marcelo Furtado, diretor-executivo do Arapyaú.

A primeira e por enquanto única ação programada é um debate em parceria com o site Fluxo, do jornalista Bruno Torturra, sobre "o que está acontecendo com a mídia" e, sublinha Furtado, "a necessidade de desenvolver um novo modelo de negócios".

Por outro lado, a Fundação Ford, que foi pioneira no investimento em mídia no Brasil, reduziu seu orçamento para a área de US$ 2,6 milhões em 2014 para US$ 2,3 milhões em 2015.

INFRAESTRUTURA

Entre os sites bancados pela fundação estão as agências "Pública", "Patrícia Galvão" e "Amazônia Real", esta de Manaus, com pouco mais de um ano e meio e recém-premiada.

"Nós arcamos com as despesas no início, nosso próprio dinheiro", conta a jornalista Kátia Brasil, da "Amazônia Real". "E eu não sabia nada de empresa, fui estudar no Sebrae, fazer aulas de contabilidade, finanças."

Bateu na porta de empresas e agências de publicidade, sem sucesso, e a saída encontrada foi a Fundação Ford: entre apresentar o projeto e receber a primeira parcela, foram nove meses, mas a bolsa anual de US$ 80 mil já banca reportagens e correspondentes.

"Mantém 70% da operação, pagando aluguel, colaboradores em Rondônia, Roraima, Belém, Rio Branco, duas reportagens especiais em preparação. Acaba em 2015, mas a gente tem esperança de renovação."

Kátia diz que "eles deixaram claro, desde o primeiro momento, que não queriam ter interferência nenhuma na linha editorial".

Graciela Selaimen, que responde pelo programa de mídia da fundação no Brasil, acrescenta que "apoia mais a infraestrutura do que o conteudo, o importante é a atividade do jornalismo".

"O foco não é apoiar em função do conteúdo stricto sensu, mas em função do trabalho que está por trás e o que ele pode representar para o campo da liberdade de expressão no país."

NICHO

Noutra frente de busca de receita pelos novos sites, da cobertura especializada em nichos como Judiciário e Legislativo, as perspectivas são mais promissoras.

O jornalista Felipe Seligman, dos sites "Brio", de reportagens, e "Jota", concentrado em Justiça, diz que o segundo já desenvolveu um modelo de negócio mais claro e "agora é fazer ele funcionar".

O "Brio" chegou a fechar um projeto com a Open Society, "mas temporário, que é o que funciona" com as organizações filantrópicas.

De sua parte, o "Jota" estaria obtendo sucesso com um modelo que abrange assinaturas individuais, por escritórios de advocacia e –as mais caras– por coberturas "premium", como o Jota Tributário.

O modelo não é muito diferente do que existe nas grandes empresas de mídia, e requer que seus empreendedores –quase todos com passagem em publicações como a Folha– desenvolvam "outros conhecimentos, até na área de vendas".

PRÊMIO E FRACASSO

E não há garantia de êxito, como confirma a trajetória de nove anos do site "Impedimento", de Porto Alegre, encerrada no ano passado.

Voltado ao futebol sul-americano, com pautas premiadas como a série sobre tortura no Estádio Nacional, na ditadura chilena, o site atingiu a maior audiência, mais de 700 mil page views, no mês em que foi fechado.

Sem encontrar um modelo de negócios, o sucesso jornalístico não se refletiu em receita: seus fundadores tentaram parceria com agência de publicidade, patrocínio privado e estatal, sem resultado.

"Chegamos a fazer um clube de sócios, em que o pessoal doava uma quantia por mês", conta o jornalista Douglas Ceconello.

"Foi o que nos manteve no último ano, se não teríamos encerrado antes."

O pecado original, diz, foi que os formandos da Federal do Rio Grande do Sul se lançaram sem projeto financeiro. "Quando a gente viu, o site tinha crescido muito e não era possível manter o tempo que estava nos tomando. Crescer acabou matando o 'Impedimento'."

PROFISSIONAL

Rosental Calmon Alves, brasileiro diretor do site "Texas Tribune", acredita que o empreendimento, sem fins lucrativos, "alcançou êxito na criação de um modelo de negócio diferente e auto-sustentável".

A receita do "Tribune" é dividida em quatro áreas: realização de eventos; doação de fundações filantrópicas; patrocínio corporativo, "que é como o que a TV pública recebe nos EUA"; e membros e pequenos doadores.

"O que é bonito é que cada uma delas tem 23%, 26% [do orçamento total]", diz Alves, sublinhando que "é tudo muito profissional, nos eventos, no financeiro também, são pessoas com larga experiência".

Diz que "o perigo desses sites novos é que são feitos por jornalistas acostumados a ter um departamento comercial por trás e nunca se preocupar com geração de receita, por isso é que muitos acabam se dando mal".

Recém-chegada ao jornalismo on-line com o site "Aos Fatos", em fase experimental na plataforma Medium, Tai Nalon cita em detalhe as experiências americanas, como a do "Tribune", ao traçar seus planos.

"A gente vai lançar neste mês o primeiro 'crowd funding' [financiamento coletivo], já conversou com duas fundações e vai conversar com mais, a gente também pretende focar em micro-assinaturas e eventos", vai listando ela.

"O objetivo é tornar financeiramente viável."

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