Uma conversa mais aberta com os públicos ajuda o jornalismo a se diferenciar das redes sociais, reforçando a sua credibilidade

Jornalistas e organizações do setor poderiam fazer um movimento decisivo no jogo da sobrevivência em 2017. Esse lance diria menos sobre modelos de negócio e formas de sustentabilidade, e mais sobre a relação com os públicos.

Há anos, a imprensa amarga queda vertiginosa nas pesquisas sobre confiança, o que acendeu a luz amarela nas redações. Não se sabe que transformações esse perigo provocou, mas há cada vez menos tempo para resgatar a credibilidade. No Brasil, a incapacidade de explicar os ruidosos acontecimentos de junho de 2013 e a cobertura errática (e muitas vezes enviesada) da crise política e do processo de impeachment de Dilma Rousseff são dois episódios que demonstram um forte descolamento entre o mundo das redações e as expectativas da sociedade sobre o papel do jornalismo na vida social.

No exterior, não é diferente. O noticiário sobre a crise dos refugiados e a saída do Reino Unido da União Europeia divide opiniões e corrói a certeza de que o mundo possa ser entregue às pessoas na forma de notícias. Nos Estados Unidos, o jornalismo não conseguiu esconder a surpresa com a eleição de Donald Trump. Em toda a parte e de formas variadas, decepções, queixas e questionamentos se acumulam, e o jornalismo parece aparvalhado diante da crise.

Queda nas tiragens de jornais e revistas, redução nos índices de audiência na radiodifusão e evaporação de verbas publicitárias vêm causando demissões, fusões de redações, extinção de veículos e desdobramentos que só reforçam o desespero da indústria. O mais visível deles é a tentativa de meios tradicionais emularem as redes sociais, a fim de atrair a mesma atenção e resultados mais impactantes.

Em setembro de 2015, a revista TPM convidou seus leitores a “mandarem nudes” para uma reportagem que estaria produzindo sobre sexo e tecnologia. A campanha se valia da linguagem do universo das redes sociais, mas foi muito mal recebida a ponto de a revista precisar se explicar e pedir desculpas. Nas próprias redes sociais, pessoas criticaram a “irresponsabilidade” da TPM ao incentivar práticas que poderiam resultar em revenge porn, e outras duvidaram da capacidade da redação para se certificar da autenticidade dos materiais enviados. Os públicos reagiram e invocaram compromissos do jornalismo tradicional: a responsabilidade sobre o que se publica e a necessidade de apurar. Tudo porque uma revista — por mais liberal que seja — quis jogar as mesmas regras das redes sociais.

O caso #mandanude é um exemplo entre tantos da desorientação do jornalismo contemporâneo, e de como ele vem, às cegas, tentando reforçar seus laços com o público.

Vimos uma derrapada maior recentemente com o caso do Catraca Livre. No mesmo dia em que o jornalismo convencional tentava explicar o acidente aéreo que matou 71 pessoas e quase toda a delegação da Chapecoense na Colômbia, o Catraca publicou um conjunto de posts que exploravam a tragédia para atrair audiência. Um deles apresentava dez selfies de pessoas em seus últimos dias! A estratégia foi considerada oportunista, insensível e infeliz, e o público não perdoou. Em um dia, a fanpage do Catraca chegou a perder 400 mil seguidores. Ao menos três pedidos de desculpas foram feitos pela equipe e pelo seu criador, o jornalista Gilberto Dimenstein, mas o esforço não conteve a sangria. Mesmo para um empreendimento digital que tem um público de 8 milhões de usuários, o estrago foi gigantesco. Não apenas por conta da fuga em massa de seus leitores, mas por profundos golpes na credibilidade.

 

O que se percebe é que a grande maioria das reclamações dos públicos diz respeito à frustração de um pacto. Os meios prometem oferecer algo que não atende às expectativas ou se distanciam muito de antigos compromissos, fundados na imparcialidade, objetividade e verdade.

Ao mesmo tempo mito e meta, a objetividade é daqueles fantasmas que os jornalistas continuam a perseguir. Desconfiamos que exista de verdade, mas teimamos encontrá-lo, como se ele pudesse garantir um estatuto diferente para o trabalho que realizamos.

É verdade que o jornalismo moderno tem algumas dívidas com a ciência, e é por isso que uma das suas vigas mestras é a racionalidade, e outra é a busca de um distanciamento que garanta objetividade. Estar distante das fontes e das versões poderia assegurar que o jornalista fizesse julgamentos não contaminados, leituras mais críticas da realidade, enfim, imparcialidade. O fato é que até mesmo as ciências mais duras, como a física, reconheceram que a objetividade total é inalcançável. Apesar do Princípio da Incerteza de Heisenberg, as redações insistem na crença de um jornalismo objetivo, e os departamentos comerciais teimam em vender uma imagem holográfica dos veículos.

Se se apegar à objetividade é um erro, o que resta então?

 

O movimento que espero ver no jogo da sobrevivência em 2017 é um lance pela transparência. Tradicionalmente, as empresas brasileiras são muito avessas a isso. Nas seções institucionais de seus sites, inexistem informações financeiras, composição acionária e políticas internas de governança. Não se encontram também dados sobre quanto recebem de verbas de governos, eventuais conflitos de interesse em coberturas ou mesmo as afinidades políticas do grupo empresarial dirigente. Não sabemos em que condições reais foi feita uma reportagem. Também não se percebem políticas claras de relacionamento com os públicos, gestão de erros e prestação de contas. Não há esforços para uma relação mais horizontalizada, o que poderia estabelecer laços mais fortes de confiança e firmar novos pactos com o que antes chamávamos de audiência.

Jornalistas e meios poderiam ter uma conversa mais aberta com seus públicos. Em certas situações, eles não dependem mais do jornalismo convencional para se informar, o que deveria soterrar a arrogância que sempre sustentou uma relação paternal de jornalistas com seus leitores. Para tanto, as redações deveriam estar honestamente mais abertas às sugestões e à participação das pessoas, talvez até criando conselhos mistos em que os públicos pudessem interferir em decisões editoriais. Editores e repórteres deveriam responder os comentários em sites e redes sociais, estabelecendo um diálogo efetivo. Deveriam também fazer mais correções e admitir seus erros, assumindo uma postura mais franca e verdadeira, pois não existe pacto de confiança sem honestidade e transparência.

Na atualidade, vigora um clamor para que sujeitos e organizações prestem contas e deem satisfações. O jornalismo não existe fora da sociedade e não pode se desviar dessa exigência. O ano de 2017 poderia trazer os primeiros passos na direção de que ser mais transparente é ser mais ético.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2017. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.